Saudades da caverna

Tenho televisão. Mais, tenho computador. E bom, até. Gasto nele muito do meu dinheiro. Tenho telefone móvel, tenho casa, água potável, electricidade a escorrer pelas tomadas. Tenho lâmpadas fortes, aspiradores, torradeiras. Um frigorífico, cartão bancário, equipamento hi-fi, cama, sofá, prateleiras com CDs, livros e perfumes. Tenho automóvel. Tenho seguro de saúde. Tenho, na verdade, mais coisas do que aquelas que realmente preciso ou posso sequer utilizar se a saúde me faltar. Tenho tanta coisa e uma coisa mais, uma saudade das cavernas. Não procuro viver numa caverna, não seria sequer capaz disso. O que tenho é uma saudade imensa de algo que afinal posso nunca ter tido. Um desejo de encontrar um equilíbrio que acredito ter tido, e perdi. Um equilíbrio que já pouca gente tem, porque afinal está tudo doido. Andamos todos doidos, vivendo uma espécie de psicose colectiva, até parece verdade a existência de uma matriz que nos controla. As coisas simples – aquelas de que gosto e já falei antes – estão todas perdidas, e não há quem as encontre. Andamos perdidos em hábitos que nos fazem mal, que nos retiram a vitalidade. Ah, mas nas cavernas… devia ser bem mais saudável a vida nas cavernas. Frio e escuro, e muito simples. Rebenta ao meu lado de manhã uma máquina infernal que despeja as notícias do dia e o relato – monótono, sempre igual – do trânsito da capital. Saio para a rua com uma pressa calculada para me enfiar num transporte em direcção à grande cidade, onde me confundo com todos os outros, enfiado numa sala a fazer aquilo que todos os adultos querem fazer: produzir. Produzir, produzir, produzir. Temos todos de produzir. Não interessa viver, viver é chato, viver é desnecessário. É preciso produzir. Produzir é que é bom, produzir é que o patrão quer, produzir é o que nós queremos que os outros façam para nos satisfazer as necessidades materiais. Haja produção. E zombies. Muitos zombies. Abaixo a alegria, abaixo a harmonia, abaixo os momentos de rabo sentado na relva em companhia das formigas, fora tudo isso, quem o quer? Haja produção. Muito dinheiro, muito capital, produtos transaccionados, lucros, fatos e gravatas em carros de alta cilindrada. Viagens de avião, restaurantes com muito luxo e muita cagança – cagadas de Adão passadas-a-ferro, faz-me lembrar – e uma comida péssima onde todos trabalham para uma pose de fantoches. Somos todos fantoches, macacos bem vestidos. Estamos todos vazios. Vazios por dentro. Pedaços de carne, pedaços de excremento. Mas, atenção, engenheiros fantoches, doutores macacos, muita pose. E muita produção.

Raios. Venha a caverna. Está de facto toda esta tecnologia, toda esta suposta evolução, a fazer alguma coisa boa connosco? Serve para viver melhor? Ou dá-nos apenas a ilusão de viver melhor? Era bem mais feliz quando não tinha nada disto. Era feliz quando tinha televisão a preto-e-branco, gira-discos, brinquedos simples. Era feliz quando não tinha centros comerciais, 50 canais para escolher. Era feliz quando a TSF era ilegal. Quando via o Espaço 1999, a Galactica, o Dallas, o Buck Rogers e o Sport Billy. Era feliz quando estava na moda a Cinderela do Carlos Paião. Quando pintava com aguarelas ou lápis de cera.

Mas agora pedem-me que produza. Não me pedem que tenha equilíbrio. Quando passo ombro a ombro com alguém não procuro saber se essa pessoa está feliz. Não lhe digo “bom dia”. Não sei se essa pessoa tem tempo para sentir que está viva. Quando se está no meio do campo, no alto do monte, na beira do mar, sente-se que se está vivo. Eu sigo o meu caminho para produzir, cruzo-me com outras pessoas que vão produzir, e vejo quase sempre um sem-abrigo sentado a beber cerveja. Ele não produz, não tem casa, computador, frigorífico. Não tem automóvel, não tem seguro de saúde, talvez nem sequer saúde. Mas pode sentar o rabo na relva ao pé das formigas e olha os outros a passar. No seu íntimo talvez deseje ser como quem vê, talvez sinta mágoa por não produzir. Nas cavernas eram todos iguais. Peles e mocas. Uma fogueira. E antes de algum animal selvagem lhes saltar em cima, talvez até tivessem tempo de ver as constelações rodar no céu e soltar uns grunhidos interrogativos. Grrrnhoka srrnhaka ugga! Diz-se que não eram produtivos. E até viviam menos. Mas de certeza que tinham equilíbrio.

@2002-11-07 14:39

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *