Aos seis anos entra-se para a escola primária, inicia-se uma longa jornada de aprendizagem, dão-se os primeiros passos para juntar letras, formar sílabas, adicionar e subtraír. Aos doze anos conquista-se o direito de ver quase todos os filmes do cinema, mesmo aqueles com uma dose razoável de mamas e rabos, ganha-se o direito ao cartão jovem para ter descontos. Aos dezoito anos consideram-nos adultos, acham que por magia, de um dia para o outro, já somos capazes de pensamento político e deixam-nos votar. Deixam-nos tirar a carta-de-condução e saír para a estrada. Aos vinte e cinco anos acabam-se as brincadeiras. É a idade limite para as experiências.

Quando se é muito jovem a capacidade regenerativa é muito grande. As novas seduções ultrapassam os sofrimentos causados pelos insucessos últimos. A adrenalina é muita, as hormonas andam todas aos saltos – em algumas pessoas saltam mais que noutras – e tudo é efémero. As paixões são loucas e como tal ardem muito depressa, dão intenso fogo mas depressa se apagam. Salta-se de relação em relação com facilidade, os namoros oscilam entre um dia e dois ou três meses, mas mais que isso é raro. Há sempre algo além para descobrir, uma pessoa nova, uma nova forma de beijar, de abraçar, reacções diferentes perante os estímulos. E agora, que no meu tempo não era assim, há também novas formas de sexo para descobrir. Tudo se banalizou. Ou antes, facilitou-se. Há novos standards na manutenção de uma relação. Quando eu era mais novo o pico máximo da expressão amorosa era um beijo com língua, uma ocasional carícia nos seios, e era tudo. Agora não. O beijo com língua que outrora era o máximo, é agora o mínimo. A malta nova quer muito mais, e quer muito mais depressa. Mas, invariavelmente, chegarão um dia ao limite das brincadeiras, que esse existe para toda a gente e a mim apetece dizer que está nos vinte-e-cinco anos.

Até essa idade podemos ter desgostos amorosos. Pode-se brincar, pular de relação em relação. Há tempo para isso, e acima de tudo, o corpo ainda reage bem, a mente está bem oleada e nenhuma desilusão nos abate muito. Afinal, a malta ainda é jovem! E, para mais, ainda não se sente a necessidade de construir ou manter algo de sólido para o futuro, e sabemos bem que quanto mais o tempo passa maior é o risco de ficar solteiro e mal-humorado.

Quando apanhamos um desgosto aos vinte-e-cinco ou acima disso, ficamos fundidos da cuca. As mágoas batem muito mais forte e levamos muito mais tempo a recuperar, a passar por cima disso, a reconquistar a segurança para nos envolvermos em algo novo, renovado. Não é boa ideia apostar no cavalo errado quando se passa dessa idade. Já vi apostadores levar anos a recuperar de uma corrida perdida, e nem sempre ficam totalmente recuperados. As brincadeiras fazem-se quando se é teenager. As experiências fazem-se quando ainda é (relativamente) seguro fazê-las. Mas depois disso não. Depois da idade limite não se podem sofrer desfeitas emocionais, são graves e até a saúde colocam em risco. Para certas coisas da vida a velhice chega mais cedo. A vida dá-te vinte-e-cinco anos para gozar, os restantes são para viver com calminha. Controverso, não?

@2002-08-14 14:32

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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