No reinado das benzodiazepinas

O aço é rei, não para estruturas metálicas mas sim para sistemas nervosos. Quem tem nervos-de-aço é efectivamente um rei. Nestes tempos de ansiedades e depressões felizes daqueles que conseguem manter-se calmos, sem recurso a anti-depressivos, ansiolíticos e afins. É como se andasse alguma coisa no ar, escondida nos aparelhos de ar-condicionado, escondida na comida, na água, entranhando-se e fazendo os seus estragos. Anda meio mundo com os fusíveis queimados. É tanta gente, e com sintomas tão semelhantes que é impossível não pensar que alguma coisa ande a provocar isso.

Descobri recentemente que tive uma depressão nervosa considerável no verão de 2001. Descobri isso porque consultei um especialista. Eu nem sabia que aquilo porque tinha passado se podia chamar uma depressão. Recorri a um especialista porque tinha uma série de sintomas, manifestações físicas de uma ansiedade extrema, e algo precisava ser feito. Não podia continuar sem saber o que era. Ou talvez soubesse e não quisesse admitir. Estou enervado, estou ansioso, e a recuperar de uma depressão. Se é que algum dia se recupera verdadeiramente. E, conversando, descobri mais coisas. Que os meus colegas de universidade estão iguais a mim, e que os meus colegas de trabalho sofrem das mesmas coisas que eu. E mais, que há toda uma população da minha idade com os mesmos sintomas. Além de coisas muito pessoais que nos fazem ficar com os nervos totalmente fundidos, há mais coisas. Que coisas são?

A primeira coisa que me ocorre é o profundo stress que toda uma geração vive, com situações profissionais extremamente precárias, sem perspectivas de futuro, sem saber quando se é dispensado. Jovens à procura de primeiro emprego é coisa que não falta, e está difícil para toda a gente. E só se ouvem notícias por todo o lado de que é preciso apertar o cinto, que os tempos são de contenção, que o país está de tanga. Não há uma palavra de incentivo, não há uma palavra de esperança. É tudo a mandar para baixo. E nós lá vamos imbuídos nesse espírito. E mais me convenço que as coisas se pintam sempre mais negras do que são, e que não falta realmente dinheiro, está apenas mal distribuído e nas mãos de grupos de interesse muito poderosos. A justiça não existe, claro. E quem sofre com isso é o peixe-miúdo, são os jovens. Soma-se o stress. Três vivas à ansiedade. No final, quem realmente lucra com isto são os fabricantes de medicamentos. Só à conta de anti-depressivos deve fazer-se uma boa maquia.

A segunda coisa são as injustiças que se vivem nos locais de trabalho. Nem todos os patrões sabem ser patrões. Nem todas as chefias sabem manter operações bem organizadas, gente motivada, tarefas bem definidas. E, sobretudo, remunerações adequadas às tarefas desempenhadas. E, claro está, todo o patrão quer o máximo trabalho pelo mínimo custo, e damos por nós a trabalhar precariamente, sem vínculos, sem progressão na carreira, sem benefícios, com um controlo quase pidesco e sujeitos a invejas e mentalidades pequeninas. Travados na inovação por pessoas mesquinhas e acomodadas a um sistema velho e caduco, na simples espera pela reforma, sem produzir mas roubando o lugar a quem realmente pode produzir e inovar. E na hora de reduzir nas despesas as primeiras pessoas a conhecer o olho-da-rua são precisamente as que produzem e menos são reconhecidas por isso. Como pode uma pessoa não ficar stressada, enervada, deprimida, ansiosa com isso? Só se tiver nervos-de-aço. E se os tiver, é Rei!

A terceira coisa é bem mais pessoal. São as faltas de respeito, as grandes desilusões, os desgostos pessoais. As mortes de pessoas que queremos bem, as doenças graves que proliferam nos dias que correm, a superficialidade dos contactos pessoais, a substituição das conversas por um serão televisivo, a relação solitária com um computador. Tantas coisas que nos tocam as emoções de uma forma tão negativa que nos deixam totalmente de rastos. Já ninguém se respeita. Só há violência, má-educação crónica, total desprezo por valores éticos e morais que realmente funcionam mas todos julgam estar fora-de-moda. E as tentações de todos os dias, a volatilidade das relações pessoais, as incertezas, não se saber se se está realmente bem onde se está. E os maus hábitos, as coisas que sabemos fazer mal à nossa saúde mas mesmo assim se fazem todos os dias. As más comidas, as más bebidas, os vícios. A rapidez, ter de andar sempre a correr, porque o tempo é dinheiro e o dinheiro é escasso. Que raio de vida andamos nós afinal a cultivar, que vida queremos ter, que coisas queremos recordar como conquistas pessoais quando chegarmos a velhos, se realmente lá conseguirmos chegar? Que isto da maneira que anda não é garantia de conquista da velhice para ninguém.

Seriam os nossos antepassados nervosos? Haveria ansiedade nas cavernas? Deixaria o caçador de perseguir o búfalo para curtir uma depressãozinha à beira da fogueira? Existiria alguma versão pré-histórica das benzodiazepinas?

Há que procurar entender quais são as coisas que nos deixam assim, fazer uma introspecção que nos permita identificar aquilo que nos oprime. Perguntarmo-nos «O que é que me oprime?», «O que é que me deixa assim?», «Que problemas são os meus?». E se não conseguirmos livrar-nos de todos eles, deixemos para trás e bem longe todos os que pudermos. Deixemos longe os problemas, as situações, as injustiças, as pessoas, todas as coisas que nos fazem ou fizeram mal. A vida não pode ser assim, esta sucessão de momentos em que não se sente o prazer de estar vivo. As tonturas, as vertigens, as taquicardias, as agitações, os ataques de pânico, as dores, as fobias. Isso não é vida. Não é qualidade. Não podemos andar uma vida inteira a sentir essas coisas e a procurar conforto nos medicamentos. Assim não. Haja paz, haja calma, haja distanciamento de tudo o que nos oprime. Falar é fácil, bem sei. Mas tenta-se, não?

@2002-08-06 14:30