Não existem segredos perfeitos, apenas revelações contidas. Segredos perfeitos só se nunca abandonarem o criador do segredo, por via da língua ou da escrita, e mesmo assim não se pode dizer que seja um segredo absoluto. Pelo menos para os crentes, um segredo é sempre uma coisa a dois, no mínimo. E, como se costuma dizer com infinita sapiência, cada um sabe de si e Deus sabe de todos.

O protocolo utilizado na transmissão dos segredos costuma iniciar-se com um pedido de sigilo. Eu conto-te isto, mas apenas te conto a ti e peço-te que não contes a mais ninguém. Do outro lado encontra-se, normalmente, uma pessoa ávida, sedenta de conhecimento, que bebe a revelação feita até à ultima sílaba. E por fim, como que para sossegar o emissor, garante que é um túmulo, que é um saco sem fundo, que não vai abrir a boca. Talvez o detentor original dessa revelação tenha decidido partilhá-la porque o ia fazer com um bom amigo, mas esquece-se que o seu bom amigo tem outros bons amigos.

Segue em frente o protocolo do segredo. O bom amigo, agora detentor em segunda-mão da revelação maravilha, encontra-se na rua com um outro bom amigo ou então telefona-lhe e diz-lhe que tem uma coisa para lhe contar, que pode contar porque ele é um bom amigo e sabe que ele não vai contar a mais ninguém, e que não há problema em falarem sobre isso. Verbos e substantivos mais tarde está a revelação toda feita. O segredo passou a ser do conhecimento de três pessoas. Mas apenas por pouco tempo. O protocolo do segredo é muito simples e repetitivo. O terceiro elemento desta cadeia tem, também ele, uma mão-cheia de bons amigos, que têm outros tantos bons amigos. Eventualmente há um desses bons amigos que é jornalista e acha a história muito apetitosa e decide publicá-la. E o primeiro de todos, o original detentor do segredo descobre um dia que a sua revelação é agora do conhecimento de toda a gente. Faz até algum sentido, afinal toda a gente é boa amiga de alguém e segredos absolutos, já se viu, não há.

You’re out of the loop

Além da situação dos bons-amigos há outra condição que faz parte do protocolo do segredo, a união. Entre bons amigos há comentários que circulam, más-línguas, viperinices, boatos, revelações da intimidade de alguém, algumas inconfidências. Depois há sempre as namoradas, as mulheres, as amantes, as parceiras da cama. Quando alguém se une a outra pessoa numa relação fica automaticamente «out of the loop», recordando uma frase dita pelo Seinfeld ao George Costanza. Efectivamente, uma revelação feita a um dos elementos do casal é normalmente partilhada com o outro elemento. E os dois elementos do casal têm bons-amigos. Confiar um segredo a um elemento de um casal é uma forma de duplicar a difusão por contágio desse mesmo segredo.

Sempre me foi dito que o melhor se guarda para nós. Parece egoísmo, mas pensando um pouco depressa se percebe que é, na verdade, uma regra fundamental de sobrevivência em face dos muitos buracos que o protocolo do segredo tem. Guardar o melhor segredo para nós é não só uma forma de evitar que um segredo deixe de o ser, como também é uma forma muito simples de evitar que alguém ganhe vantagem sobre nós. E assim como isso me foi dito, costumo eu dizer que se contar aos outros aquilo que eu sei, eles ficam a saber mais que eu, porque ao que já sabiam somam o que eu sei. Parece socialmente incorrecto não é? Mas é uma boa regra de sobrevivência a aplicar quando se percebe que o protocolo não funciona.

@2002-05-08 22:21