Hoje ao almoço fui ao sítio do costume, comer uma vez mais o que normalmente como ao almoço. A bela sopa. Existe uma beleza na sopa que muita gente despreza, não sabe dar o valor. A sopa é bela. Um conjunto de coisas que se juntam em harmonia. Na sua imensa individualidade, juntam-se os ingredientes para um bem comum. Mas eu prefiro purés. Sempre são mais fáceis de comer, não é preciso ficar com um pedaço de couve pendurado no queixo. Mas a sopa, por mais maravilhosa que me possa parecer, não é o que me leva a escrever. Aqui e agora. É que comendo a sopa, tive uma revelação.

Estava sentado sozinho, com a sopa, a sandes mista e um pastel de nata. Nestes momentos, para além da preocupação em não pingar a barba, a mente deixa-se fugir em muitas direcções. Quando se come sozinho vivem-se momentos de grande isolamento. Existimos apenas nós e a nossa comida. E eu vivia esse isolamento quando levantei os olhos e vi uma jovem – devo acrescentar que era tão bela quanto a minha sopa – sentada a alguns metros, sentada bem à minha frente, de lado, conversando com uma amiga. Não sei o que me chamou a atenção, mas reparei. Reparei que quando ela se mexia a camisa abria, e abrindo-se deixava-me ver a quase totalidade do seio direito. Em pensamento rápido passaram-me várias ideias pela cabeça. Ela saberia que a estava a exibir? Como seria o soutien dela? Que forma teriam aqueles seios despojados de toda a roupa?

Que infelicidade. Ela puxou de um cigarro. Isso estragou aquele quadro idílico, mas não me impediu de ter a tal revelação. Imediatamente pensei: o fascínio pelas mamas dela eram por ser uma desconhecida, e se as visse totalmente descobertas não sentiria o mesmo interesse. Revelou-se-me: o segredo é o motor do desejo. O segredo, a roupa, as visões parciais de tudo o que é objecto do nosso interesse. Vivendo num mundo de corpos nús em abundância, com tanta facilidade em ver vulvas e mulheres em atitudes de total oferecimento, dou por mim a compreender quão excitantes podiam ser aqueles fatos-de-banho do começo do século XX, aqueles tempos em que era uma conquista conseguir ver um joelho, em que o amor se fazia às escuras. Não sinto inveja desses homens, mal por mal prefiro poder ver o corpo despido de uma mulher, prefiro ter livre acesso às imagens de vulvas e mamas, mas entendo que sou vítima de um esforço de produção, de uma facilidade que retira todo o valor erótico de uma perna que se oculta, de um belo par de mamas que se esconde sob as curvas sugestivas de uma camisola mais apertada.

Segurando aquela colher de sopa tomei consciência do valor que as coisas ganham quando estão tapadas. De como aquele pedaço de pele que a tal rapariga exibia sob a camisa ligeiramente aberta me podia excitar muito mais do que uma visão total, sem obstáculos. Porque assim podia fantasiar, podia imaginar um corpo de acordo com os meus ideais. Podia viver na expectativa de um dia a despir. Podia sentir a excitação da conquista, da sedução. Creio que, na transição da sopa para a sandes mista, dei por mim a pensar que preferia as mamas dentro do soutien do que fora dele. Porque quando elas finalmente saltam cá para fora é como o brinquedo que se recebe. Brinca-se, já está visto, encosta-se a um canto. O segredo, aquilo que se esconde… isso sim, faz o sangue galopar.

Mulheres, escondam o que têm e deixem apenas um pedacinho de fora para mim, please!

@2002-01-25 22:19