O primeiro amor

Não passa disso. É apenas o primeiro. A seguir vem o segundo, o terceiro, o quarto, mais ou menos consoante as pessoas e as histórias que tiverem para contar. As boas ideias, quando não surgem na casa-de-banho, surgem de boas conversas durante as refeições, e da última vez que conversava com um amigo ele espetava o garfo numas salsichas alemãs enquanto eu ajeitava mais uma garfada de açorda de gambas. Entre este manejar de talheres tive uma revelação, e ele também. Haviamos concluído que o primeiro amor é sobrevalorizado e não passa disso mesmo, o primeiro. Mais, ousamos dizer de boca cheia (de salsicha e açorda) que o primeiro amor não é coisa para toda a vida.

As primeiras coisas são sempre marcantes. Precisamente porque são as primeiras. Antes delas não existia experiência semelhante para nos lembrar como era, não existia nada que nos servisse de comparação, nada que permitisse saber o que poderia acontecer, que sensações se poderiam viver. Sendo as primeiras coisas são elas que nos vão marcar para o resto da nossa existência. São as primeiras coisas que constroem o nosso referencial para experiências futuras. E como tal, marcam muito. A primeira vez que se anda de bicicleta sem rodas de apoio, a primeira vez que se apanha um choque eléctrico, o primeiro beijo que se dá, o primeiro amor. Quando se aprende a andar de bicicleta sem rodas de apoio é uma sensação e pêras. Aquela sensação de equilíbrio conquistado enche-nos de confiança que nos permite aperfeiçoar a técnica e, eventualmente, começar a rolar pela estrada fora sem mãos, a fazer cavalinhos, a derrapar em terra. Quando se aprende a andar de bicicleta não se fica para todo o sempre com uma atitude de medo sobre duas rodas. Pelo contrário. Adquire-se confiança – por vezes demasiada – para acelerar nos pedais e sentir que se domina a máquina. E depois da primeira bicicleta, à medida que se vai crescendo, vão vindo outras, mais desenvolvidas, com mudanças, amortecedores, talvez até um velocímetro. Com o amor é a mesma coisa. O primeiro amor é a nossa bicicleta, mas quando crescemos as rodas ficam muito pequenas e sentimos que estamos sentados no chão.

O primeiro amor é uma coisa inflamável. Faz uma explosão visível a partir das outras galáxias mas como arde muito gasta muito depressa o combustível. E só perdura quase por mania. O primeiro amor é uma escola. É com ele que aprendemos o que o amor é. Ou antes, aprendemos a reconhecê-lo, idealmente a dar-lhe valor. Talvez nunca se chegue a aprender o que ele é, mas seguramente aprende-se a reconhecê-lo quando nos bate à porta, mesmo que bata devagar ou levemos tempo a ouvir. As escolas ensinam-nos um punhado de coisas e depois atiram-nos em frente. É como dizer “aprende como isto se faz e agora vai-te”. Levamos a vida a aprender, mas não passamos a vida na escola. A escola faz parte de momentos muito próprios na vida de uma pessoa. E o primeiro amor é assim mesmo. A escola, apenas isso. Depois dele, depois de aprendermos como foi, chegam finalmente as sensações com as quais podemos viver, chega finalmente um amor mais longo, que arde de uma forma bem mais discreta, leva mais tempo a queimar o combustível, aquece-nos durante muitos mais anos.

A escola fica para trás. É sempre marcante, mas fica para trás. Ninguém esquece a carteira onde se sentava, a hora do recreio, o lanche, jogar à apanhada, às escondidas, o eterno interesse em ver o que escondiam as saias das meninas, mas tudo isso vai ficando para trás. Aprender e seguir em frente.

@2001-10-21 22:18

Posted in Crónicas curvas

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