Diz-me a quem te assemelhas, dir-te-ei quem penso que és. É possível pensar-se assim se se assumir que as opções que se fazem têm por base simples comparações. Comparamos tudo. Os preços das coisas, o tempo que levamos a fazer algo, o valor dos objectos, o gosto que temos nas coisas, tudo se baseia em referenciais a partir dos quais elaboramos comparações simples ou mais complicadas consoante o caso. Pensar que duas coisas são incomparáveis é uma mentira, uma ilusão. Tudo é comparável e é assim mesmo que se decide para onde se vai. Esquerda ou direita?

O que se aplica às coisas aplica-se também às pessoas. A nossa experiência de vida fornece-nos continuamente novos pontos de referência que utilizamos para comparar. Aplicamos comparações às pessoas que conhecemos. É assim que ficamos a saber se nos agradam ou não, porque as comparamos com os nossos parâmetros, com aquilo que consideramos serem os ideais pelos quais nos regemos. Olhando para ti comparo a cor dos teus olhos com a côr que eu idealizo ser a mais bela. Faço exames rápidos relativos à côr dos teus cabelos, traços faciais, a roupa que tu vestes. A comparação dos teus sinais exteriores com os meus parâmetros de base é uma coisa rápida e quase imediata. Comparar as tuas ideias e sentimentos é mais complicado, leva mais tempo, mas também se faz. A um nível de complexidade superior, onde a linguagem é mais críptica e de baixo-nível (*), as comparações continuam a existir. São a base do processo de decisão.

Como posso eu saber se uma coisa é boa e me agrada se eu não tiver referenciais? Se toda a minha existência fosse vazia de experiências e conhecimentos adquiridos, estaria pronto a aceitar sem reservas qualquer nova sensação, objecto ou pessoa como algo de bom, positivo. Estaria desprovido de algo que me permitisse fazer uma avaliação. Talvez a intuição me ajudasse, mas então interrogar-me-ia: Não seria a intuição baseada também ela em experiências passadas?

O processo de decisão baseia-se em comparações. Seguimos os rumos que mais nos agradam – quando nada nos impede – porque são esses que nos oferecem maior vantagem. E como o sabemos? Porque comparamos os diversos rumos que podemos tomar. Ponderamos os aspectos positivos e os aspectos negativos. E uma vez feita essa ponderação tomamos uma decisão. Idealmente optamos sempre pelo melhor, e quando nos são apresentados todos os factores a ter em conta é até um insulto à inteligência de que somos dotados fazer qualquer opção em contrário. É rejeitar um método eficaz de decisão. Comparar para vencer.


(*) Aqueles mais habituados à programação informática reconhecerão por certo no título deste artigo uma instrução de Assembler de comparação de dois registos. O paralelo que me apraz estabelecer é válido tanto para as linguagens de alto-nível, aquelas de melhor percepção, como às de baixo-nível, as linguagens mais complicadas e que envolvem um maior número de instruções para executar tarefas. Pretendo com isto dizer, de uma forma rebuscada q.b., que as nossas decisões se fazem por comparação das nossas experiências e ideais, tanto a um nível macroscópico – poderei dizê-lo assim? – nas grandes opções que tomamos, como a um nível microscópico, nas pequenas acções de todos os dias, até mesmo nas opções inconscientes e que tantas vezes não são sequer explicáveis. Pelo menos, aparentemente. Esta ideia não tem qualquer valor científico, tanto mais que não a apresento com qualquer fundamentação tida por credível. É a minha opinião sobre o assunto. Aliás, para escrever este texto tive de tomar opções. E como o fiz? Comparei! Como seria sem o escrever, e como seria escrevendo. Decidi escrever.

@2001-10-05 22:17