I’ve got a real indication of a laugh coming on, faz parte de uma música do Twin Peaks – Fire Walk With Me que eu muito gosto de ouvir. O David Lynch é um gajo genial. Tem tanto de genial quanto de louco, e isso é saudável. Um pouco de loucura parece ser o ingrediente necessário para mantermos a capacidade de rir, de transformar as situações sofridas em boas anedotas. Pensando melhor, são dois os ingredientes necessários. A dose de loucura é um deles. O outro é o tempo. O tempo é vira-casacas. Serve para nos fazer mal, mas logo em seguida é o primeiro a ajudar-nos a dar a volta por cima. Pois que venha o tempo, que a loucura eu já tenho alguma. I’ve got a real indication of a laugh coming on!

Quando acordei de manhã ainda estava um pouco pesaroso. Isto de ter problemas em cima dos ombros é um aborrecimento. Não ajuda nada. Faz uma pessoa andar com cara de poucos amigos e deixar a barba por fazer mais alguns dias. Não ajuda mesmo nada. É a vida, dirão alguns. É uma idiotice, digo eu, que começo finalmente a sentir a vontade de fazer a barba e colocar uma expressão facial um pouco melhor. Tenho de transmitir uma boa imagem para o exterior, pela simples razão de que o exterior não vai querer nada comigo se eu me apresentar tristonho. O exterior pensará logo “este não nos serve, está abatido! Não tem dinamismo! Não se apresenta capaz! Venha o próximo!”. Por estas e por outras, depois de algum tempo em que é normal uma pessoa se recolher para lidar com os seus problemas, é essencial que chegue o dia em que começa a recuperar a vontade de rir. Rir com gosto.

E hoje, eu vos digo, sinto-me capaz de rir um pouco. Ainda não estou capaz de rir às gargalhadas soltas, ou de rir tanto ao ponto de chorar ou esvaziar a bexiga sem querer, mas já sinto uma risada a aproximar-se. Descobri várias coisas. Assim, bem vêem, descobri que sou capaz de passar por cima dos problemas, que eles me parecem bem mais pequenos à medida que vou dando alguns passos em frente, e que afinal esses problemas nem mereciam a minha atenção. Descobri que estava a conter o riso sem razão. Era um bicho de sete cabeças na aparência. Afinal o bicho só tinha três cabeças e a minha era emprestada. Pedi a minha cabeça de volta e afastei-me. Ora assim é que é.

Não empresto a minha cabeça a mais ninguém! A minha cabeça é preciosa e guardo-a para mim. Não estou interessado em que a usem para partir ovos ou para receptáculo de dejectos de pombo. Merece melhor que isso, apesar de o cabelo estar a dar sinais evidentes de a querer abandonar. Descobri também que os meus problemas estavam na cabeça, e o corpo sem cabeça fica descontrolado. Quando a pedi de volta e voltei a encaixar em cima do pescoço, fi-lo determinado a recuperar o controlo e a instituir uma nova ordem. Ao fim de uns bons cento e vinte dias de caos, a ordem é desejada. Life’s a bitch and then you die, há quem diga. Oh, sentimento básico esse. Se é preciso morrer para identificar a puta da vida então estamos mal! E quem disse que a vida é uma puta? A vida negoceia as suas virtudes? Entrega as suas virtudes a todos? Não creio. A vida tem mais virtudes que muita boa gente, e guarda-as muito melhor que muita boa gente. Aproveite-se, vivendo bem. Isso é que é difícil, mas consegue-se.

De maneira que vem por aí uma gargalhada, já a sinto chegar. Um dia destes vou acordar muito melhor disposto e com uma vontade doida de abrir as janelas. É que, confesso, tive alguns dias recentes em que nem sequer olhei para a rua. Sabia lá eu se chovia ou fazia sol. Fiquei fechado entre quatro paredes a exorcizar os meus males. Mas agora apetece-me arejar as ideias e comprar alguma coisa para tirar da pele a maquilhagem de palhaço que me pintaram enquanto dormia.

@2001-08-16 22:14