Acima dele, nada

No dia em que me disseste o que eu não queria ouvir foi como se todo o meu interior ficasse desfeito. Deixei que as lágrimas escorressem livremente pela minha cara e mesmo assim não senti a mais leve brisa de fúria invadir-me. No meu coração, por ti, apenas existe amor, e mesmo assim continuei a amar-te. Juntos num último abraço, encostei os meus lábios ao teu ouvido e disse-te, baixinho: “Só o amor vale a pena. Acima dele, nada!”. À medida que os nossos braços se abriram e os nossos corpos se afastaram, foi como barco que deixa o cais, e senti um vazio crescer entre nós, a terra a abrir-se. A porta do elevador fechou-se e vi-me sozinho, a descer. Em todos os sentidos.

Abandonei assim aquele espaço, deixei tudo para trás. Enfiando-me no carro parti em busca de respostas que me levassem a entender a sucessão de absurdos que os nossos últimos dias tinham presenciado. Encontrei no caminho uma aldeia pequena, sem movimento, sem crianças a brincar num ambiente de caos saudável, sem alegria. Estava sentado um ancião num banco de madeira à beira da estrada. Tinha sede. Parei o carro para lhe perguntar onde podia encontrar um café. Mas antes de ter tempo para lhe fazer qualquer pergunta, ainda a minha boca não se abrira e já ele me dizia, mostrando os seus dentes amarelecidos pelo tabaco, “só o amor vale a pena, acima dele, nada!”. Olhei-o por mais alguns instantes, mas estava estarrecido. Desviando os seus olhos de mim, levantou-se e virou-me as costas. Deixando a bengala na rua, caminhou com destreza até desaparecer numa outra rua.

Voltei a sentar-me no carro, sem saber o que pensar. Com as pernas ainda a tremer um pouco devolvi o carro ao movimento, à velocidade, enquanto observava os campos de trigo de ambos os lados do meu caminho. Cruzava-me com algum outro carro, ocasionalmente, mas a estrada parecia só para mim. Senti-me sozinho, sem estar. Porque tinha Deus comigo e tinha-te a ti, ainda, no meu coração. Mas mesmo assim a tristeza era profunda, enquanto lembrava aquele momento em que o nosso abraço terminou. Foi absorto nestes pensamentos que deixei para trás os campos de trigo e entrei na montanha. As longas rectas deram lugar às curvas sinuosas, e ao largo estendia-se uma paisagem plana, contrastante com a montanha que desafiava as núvens. O xisto deu lugar ao granito, e a aspereza das rochas fez-me sentir as dificuldades da vida. Chegado a um refúgio à beira da estrada parei o carro para contemplar as planícies, as paisagens que o mundo me oferecia para eu ver, dali, daquele ponto elevado. Sentei-me no chão.

Ali, sozinho e rodeado por pedra, o vento zumbia, batia-me na cara, ondulava a vegetação. O vento e eu, sem mais. E por instantes o vento que soprou ao meu ouvido disse-me “Só o amor vale a pena, acima dele, nada!”. Senti os meus olhos encherem-se de lágrimas mais uma vez. A alucinação do vento a falar-me só me lembrou a razão da minha tristeza. E nada parecia dar-me forças para me levantar do chão, para me pôr de novo em pé e seguir viagem. Por isso deixei-me ficar sentado, chorando sozinho no alto da montanha, a olhar o infinito. O infinito queria mostrar-me que tudo gira e desenvolve, que o mundo tem sempre movimento e algo de novo. Mas no infinito sentia-me eu, sem forças para o contrariar, empurrado para qualquer sítio negro e frio. Para mim nenhum movimento existia, nada de novo me alegrava, as forças que tinha mal me chegavam para respirar, para manter o sangue em movimento. Mas se o mundo fosse afinal finito, se existisse a barreira entre o universo e o nada, então eu sentia-me do lado do nada, onde não existia.

Não sei quantas horas passaram ali. Talvez o tempo tivesse mesmo parado um pouco para mim, não sei se para me ajudar a viver aquele momento sem pressa de fugir, ou se para me martirizar prolongando o sofrimento. Mas perdi a noção das horas. Estava a anoitecer e o vento já era muito desconfortável quando finalmente me levantei do chão e regressei ao carro. Fiz-me de novo à estrada e segui o caminho que conduzia à grande cidade. Na grande cidade eram muitas as luzes. Era muito o movimento. As pessoas que corriam para as suas casas, e outras que saíam em direcção aos bares, aos restaurantes, que iniciavam ali mais uma noite de divertimento. Muitos carros na estrada, muitos autocarros, os táxis. Havia barulho, côr, azáfama. Era a grande cidade. Esse local onde eu me sentia perdido, porque não me encaixava em nenhuma das vidas que passavam ao meu lado.

Estacionei nas proximidades de um bar que conhecia de outros tempos, e segui a pé pelo passeio. De olhar no chão eu não via as caras das pessoas que passavam por mim. Não procurava encontrar dinheiro caído no chão. Procurava talvez a minha felicidade, uma resposta, qualquer coisa. Mãos nos bolsos, semblante carregado, era eu. Entrei no bar e sentei-me ao balcão. Nunca antes tinha feito isso, era incapaz de o fazer sozinho. Nunca um bar tinha sentido para mim estando sozinho, apenas a companhia dos amigos dava sentido ao facto de entrar num bar e beber um copo. Pela primeira vez estava sozinho. Pedi a nossa bebida preferida. Sentou-se ao meu lado uma mulher bonita. Diria mesmo, muito bonita. Sensual. De bom cheiro, corpo magnético, electrizante. Mas nem isso me despertou especial atenção. Eu estava morto para o erotismo. Não tinha qualquer apetência. Mas mesmo assim olhei-a por escassos instantes. Mais pela curiosidade de ver quem se sentava ao meu lado, não tanto pela sensualidade dela.

Acho que ela percebeu o que eu tinha. Talvez já tivesse passado pelo mesmo. Pediu ao empregado “O mesmo que este senhor está a beber, por favor!”. O empregado trouxe-lhe uma Cuba Libre e ela, pegando no copo, molhou os lábios, e depois, pousando-o, disse para si mesma, como se estivesse a falar sozinha, “Foi doce no começo, mas depois veio o alcool que te queimou. E agora resta-te o gelo, a tua mão fica fria, a tua boca arrefece, a tua alma reduz-se a umas pingas de água gelada que daqui a pouco estarão já secas…”. Ouvindo aquelas palavras levantei os olhos do balcão e olhei para ela. Notando isso, ela olhou-me nos olhos. Afastei o olhar envergonhado, mas nesse momento ela começou a dizer-me “Só o amor vale a pena, acima dele, nada!”. Dizendo isto levantou-se, deixou uma nota em cima do balcão e saiu, sozinha. Eu fiquei ali, sentado, a vê-la sair e sem qualquer reacção.

Reagi minutos mais tarde. Quando terminei a bebida e me vim embora. Voltei a enfiar as mãos nos bolsos e a olhar para o chão. Caminhei de regresso ao carro por outro caminho. Mais longo. A noite tinha-se instalado há muito tempo, as ruas estavam praticamente vazias. A ronda do lixo a esvaziar os contentores de um lado, do outro um grupo de jovens mais apressados a correr para alguma discoteca. Não vi mais ninguém na rua. Caminhei sozinho, umas vezes pelo passeio, outras pela estrada mesmo. Começou a chover um pouco. Aquela chuva miudinha, que quase nem se sente mas nos encharca até aos ossos ao fim de algum tempo. Mas nem me incomodava. Sentia-me como um dia de chuva, por isso estava no meu elemento natural.

Cansado. Muito cansado. Triste. Desiludido. Mas ainda apaixonado. Regressei a casa. A casa sempre se regressa, é o nosso abrigo em todas as ocasiões. Para mim tinha sido o palco de muitas histórias de amor, muitos momentos de felicidade transbordante, momentos em que passeavas pela casa vestindo uma tshirt minha e nada mais. Momentos em que todos os minutos se condensavam num instante, num único instante. Mas antes de ir para casa passei pela tua porta. Fui tantas vezes buscar-te a casa, fui tantas vezes buscar-te a todo o lado. Os meus olhos fixaram-se na entrada do teu prédio, a mesma entrada por onde passei contigo tantas vezes. As luzes acenderam-se. O destino levou-me ali no exacto momento em que saíste do elevador com outro homem. Fiquei petrificado, tinha vontade de fugir, de me esconder. Preferia não ser visto. Mas era tarde demais. Notei algum desconforto no teu olhar, mas avançaste até perto de mim, e eu sem me mexer. Continuava sem me mexer. Sentia as mãos a gelar, um arrepio gélido percorreu-me por completo.

E no momento em que paraste à minha frente, acompanhada por ele, eu tirei do dedo a aliança que marcava o amor que tinhamos. E arranquei forças de dentro de mim para te dizer “Só o amor vale a pena, acima dele, nada!”. Ao virar as costas também tu te afastaste na tua nova companhia. Eu desci a rua, de cabeça erguida repetindo para mim que apenas o amor tinha valor. Nada mais existia acima dele. E eu sempre disse isso.

E hoje, tantos anos depois, fiquei a saber que tinhas morrido na semana passada. Lembrei-me de quando te vi pela última vez, nessa altura à porta da tua casa. Sentei-me enquanto me falavam de ti. Enquanto me diziam como tinha sido a tua vida desde então. Tantos anos depois voltei a saber de ti, embora fosse já tarde para tudo. Não estavas mais aqui, e eu, mais velho, sentia que se tinha desperdiçado tudo, tudo. Quando fui visitar-te à tua última morada deixei algumas gerberas ao lado da lápide. Gerberas côr-de-rosa. Disse-te, baixinho, quase murmurando “Porque não me ouviste quando te disse que só o amor tinha valor? Lamento tanto que não tenhas sido feliz…”.

Mais velho, quase sem cabelo e arqueado pelo peso da vida, senti de novo escorrer as lágrimas pela cara. E eram as mesmas, as mesmas lágrimas que tantos anos atrás tinham escorrido. Tinham o mesmo sabor, eram iguais. Fui invadido por uma saudade enorme… revivi os teus momentos comigo como pequenos filmes…. “Então não havia de saber o meu nome completo? Vai casar comigo!”.

Nunca casei. Mas ainda hoje sei o nome completo dela.

@2001-08-11 20:22