O futuro não é incerto

Porque não se conhece diz-se que é incerto. Mas é falso, é um conto-do-vigário que contamos a nós mesmos, numa atitude de auto-engano que pode ser consciente ou não. Quando não sabemos que passo vamos dar em seguida refugiamos a nossa incerteza na figura de um futuro sombrio, sobre o qual pensamos ou dizemos não ter qualquer controlo, qualquer forma de moldar. Mas isso é uma mentira, uma mentira que nos tentam vender ou que tentamos vender a nós próprios. O futuro não é incerto, o futuro é o resultado das nossas acções. As de ontem e as de hoje. Ontem fiz o meu futuro, hoje confirmo-o.

Não há nada de incerto no curso da nossa vida. Apenas não nos é dado a saber, ainda, que rumo vão tomar as nossas vidas, que opções vamos fazer, mas elas vão ser feitas e vão moldar o futuro que se nos oferecerá. Cada um faz o seu futuro, traça os seus planos, grandes ou pequenos. E toma opções. Idealmente tomaria sempre as opções mais correctas para poder alcançar os objectivos que tem em mente, mas infelizmente nem sempre é assim. Quando se nos oferecem dois ou mais caminhos, nem sempre escolhemos o melhor, e o melhor é normalmente o mais estreito e complicado de seguir. A facilidade, esse caminho largo e de bom piso, é muitas vezes o pior caminho. O futuro, o bom futuro, parece-me, não vem sem alguma dose de sofrimento, de dificuldade no trajecto, porque isso nos permite dar um valor imenso à satisfação de alcançar o objectivo.

Que valor posso eu dar à felicidade se tiver sido feliz toda a vida? Certamente menos valor do que dá uma pessoa que foi infeliz e de repente descobriu a felicidade. Perder algo pode ser valorizar esse algo. E se assim for, que bom será se não se tiver feito asneira ao ponto de não poder recuar e recuperar essa coisa que passamos a valorizar e a querer tanto. As muitas asneiras que vamos coleccionando ao longo do trajecto podem, se formos inconsequentes, hipotecar o nosso futuro, inviabilizar a nossa felicidade. Se és feliz, porque razão procuras a infelicidade? Se eras feliz, porque razão viráste as costas a tudo o que tinhas de bom?

Porque optáste mal. Porque as pessoas se deixam levar pelos estímulos mais imediatos, não pensam, não se guardam. Vivem os seus dias pensando que os devem viver um de cada vez. Mas depois descobrem que se tivessem vivido projectando os seus pensamentos alguns dias mais à frente teriam evitado um sem número de borradas que depois é muito complicado limpar. E é bom se for possível limpar. Nem sempre é. Há borradas que nos envolvem, que envolvem o nosso mundo, sem retorno possível. Sabendo isso, evitemos caír nesse buraco.

O futuro não é incerto. Não é imprevisível. Não é um mero acaso. Nem tão pouco Deus joga aos dados, já Einstein o disse e muito bem. Temos nas nossas mãos a liberdade para tomar decisões, para ponderar, para optar em consciência. E quantas vezes queremos colocar na balança, lado a lado, uma vida de experiências positivas e um punhado de – essas sim – verdadeiras incertezas? Coisas sobre as quais não temos realmente qualquer indicação de ser uma boa opção? E porque se é, tantas vezes, levado a rejeitar aquilo que é positivo em detrimento de uma ilusão, de uma incógnita? O futuro é aquilo que fazemos todos os dias. Não o desafiemos. Sai muito caro brincar com o futuro, porque ele sempre nos mostra e amplifica a dimensão das nossas asneiras. Parece justo. Talvez seja. Mas que bom seria não desafiar o futuro e procurar optar pelo bem, sempre pelo melhor.

Aquilo que a nossa vida vier a ser pode ser o fruto de uma mão cheia de coisas boas, ou de um vazio sem nada onde nos agarrarmos. Mas nunca será o fruto de uma incerteza. Isso é uma falsidade, explorada à medida das conveniências de oportunistas. Exercícios de retórica sem valor. Mentiras que por vezes nos soam bem ao ouvido, confortam no momento mas invariavelmente nos deixam abandonados quando precisamos.

@2001-08-09 20:21

Posted in Crónicas curvas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *