Há coisas que nos magoam profundamente. Há coisas que nos retiram até a alegria de viver, fazem-nos perder o apetite, perder peso, andar com cara de poucos amigos. Há coisas que nos fazem ficar fechados em casa, na cama a dormir – excelente terapia quanto a mim -, a evitar todo o contacto social. Há coisas que nos fazem descuidar a nossa aparência, responder mal a toda a gente e não sentir entusiasmo para nada. Eu sei. Já passei por isso tudo.

Há poucas coisas na vida capazes de causar os sintomas que eu mencionei, muito menos quando surgem todos ao mesmo tempo ou seguidos. Mas há uma que é certinha, os desgostos de amor. Essa coisa que afinal não mata – excepto se deixarmos – mas moi que se farta, que já pouca gente admite ficar de rastos por causa disso, mas que deve continuar a ser a principal causa de morte afectiva nos países em que a poligamia é censurada. Mas a verdade é que, desta feita, não pretendo falar-vos daquilo que acontece quando se apanha um desgosto de amor, nem tão pouco da aprovação ou reprovação da poligamia. Quero falar-vos dos pneus furados.

Quando um pneu se fura há várias coisas que se podem fazer. Deixar ficar como está, mudar de pneu ou remendar o furo. Depende do tamanho do furo, depende do valor daquilo que se pretende remendar. Muitas vezes dei por mim a falar com amigos meus sobre essa coisa dos furos. É uma metáfora para os problemas que acontecem numa relação amorosa, quando algo corre mal. Sempre ouvi as pessoas dizer que é terrível perpetuar uma relação que teve um furo. Diz-se que nunca fica igual, que nunca mais vai ser a mesma coisa. E isso levou-me a pensar… se é um problema do furo, do remendo, ou de outra coisa qualquer.

Cheguei a uma conclusão! Coisa rara! Não é o furo nem o remendo. O problema do furo no pneu é a memória! E a capacidade de verdadeiramente perdoar. Perdoar não é apenas dizer “eu perdoo-te!”. É muito mais que isso. Perdoar significa desculpar a pessoa pelos seus erros, não sentir qualquer rancôr, reserva, raiva contra a pessoa que errou e a seguir esquecer o erro. Se perdoarmos alguém para depois, ao longo da vida, lhe lembrarmos o erro a cada ocasião em que isso nos parece útil, não é verdadeiramente perdoar. O perdão implica a amnésia. Se eu te atirar à cara o teu pecado, não te perdoei verdadeiramente, porque ainda guardo o ressentimento. Se eu te perdoar verdadeiramente, nunca mais a minha boca se abrirá para te apontar o pecado. E então, daqui se conclui que o grande problema do furo no pneu é a memória das pessoas. Quando uma relação falha, por uma das partes ou mesmo ambas, se o remendo não for acompanhado pelo esquecimento, a relação fica afectada. Porque permanece a desconfiança, ficam a pensar “será que volta a fazer aquilo?”, “será que posso confiar?”. A dúvida destroi as relações. A falta de confiança é uma coisa terrível, e por muito legítima que a falta de confiança possa ser, em virtude de falhas anteriores, é preciso perdoar o erro e dar à outra pessoa uma nova oportunidade de merecer a confiança que depositamos nela.

Se o amor vale a pena, não hesitemos em remendar os furos. E a seguir perdoemos com todo o coração e honestidade, esquecendo. Impedindo que a memória das traições e/ou faltas de respeito e dignidade nos impeçam de ser felizes. Desde que do outro lado a pessoa saiba apreciar este gesto e faça por viver de acordo com essa oportunidade que lhe damos, que faça por conquistar a nossa confiança e merecer o nosso amor. Quando assim acontece, um furo no pneu não precisa ser o fim de nada, nem impedimento para um rolar suave sobre a estrada. Foi apenas um acidente de percurso, resolvido na hora, que os quilómetros ajudam a suavizar.

@2001-07-31 20:18