Queres saber porquê?

Já lá vão largos anos desde que comecei a despejar os meus devaneios para o papel. Aquilo que aqui publico, no CDB, é uma parte muito pequena de tudo o que já escrevi, e admiro a paciência de quem lê o que eu escrevo, porque não creio que seja tarefa simples. Proponho-me pensar em muitas coisas, mas perco-me sempre a meio. As interrogações são mais que muitas, os aspectos da vida acerca dos quais escrevo são demasiado complexos. E eu sei isso. Mas é um desafio que gosto de enfrentar, mesmo que acabe por não chegar a conclusões brilhantes.

E escrevo sobre o quê? E escrevo quando? Escrevo, fundamentalmente, sobre dois temas que me são muito gratos; a relação macho-fêmea e o Amor. É perfeitamente intencional dizer-vos macho e não homem, fêmea e não mulher. Porque nestas coisas de relacionamentos entre pessoas dou uma importância talvez exacerbada às heranças genéticas, àquilo que sempre foram os comportamentos dos dois sexos, desde a altura em que vestiamos peles e não abriamos a boca para mais do que grunhir. O que faz até algum sentido, sei que há muita gente que, neste estado tão evoluído em que se encontra a nossa espécie, não faz mais do que grunhir. E é com sorte. Mas esses são os que sofrem de bronquite. Não me refiro ao estado clínico, mas ao estado de ser bronco. E quanto ao amor, não poderia deixar de escrever sobre ele. O Amor é a base de tudo. Ou antes, o Amor e o Sexo. O Amor como sentimento basilar, o Sexo como suprema tentação. Em torno destas duas coisas tudo gira. E não há como fugir.

Se não se pode fugir – excepto se se optar por uma vida reservada, em retiro absoluto numa caverna, o que por vezes seria bem melhor – não há melhor a fazer senão tentar entender o processo. O mecanismo. Conhecer, estudar as engrenagens. Percebe-se então que existem comportamentos tipo, padrão. Mesmo com a individualidade de cada ser humano, existem coisas que todos fazem, há atitudes que parecem farinha saída do mesmo saco. E se conhecermos essa farinha temos alguma vantagem, podemos antecipar alguns movimentos do inimigo. E isso, digo-vos, é essencial.

Tenho tentado entender todas as engrenagens, mas existem histórias tão absurdas na vida das pessoas que nem sempre se consegue. Como encaixar um quadrado num círculo. Mas tenta-se, desistir não é, nunca, uma boa opção! A razão que me leva a escrever sobre estes assuntos é simples. Ou tão simples quanto várias. O desejo de entender os processos, o desafio de antecipar os comportamentos. Manter a ilusão de que é possível conhecer todos os pensamentos que servem de base às decisões que se tomam, às coisas que se sentem. Bem sei que tal não é possível. Que os machos e as fêmeas mantêm sempre uma capacidade impressionante de surpreender os outros, e que o Amor, esse tema tão complicado, não oferece verdades absolutas nem tão pouco permite fazer os juízos de valor que tantas vezes parecem facilitar o nosso entendimento. Como se para tudo existisse uma razão concreta que fosse fácil apontar, valorizar ou condenar.

Mesmo assim, insiste-se. E por isso vou tentando, sempre, partir com o objectivo de chegar a algum lado. Ficar parado, conformado, sem procurar respostas e sem tentar entender como tudo se passa na vida, não me parece uma atitude razoável. Seria talvez mais simples. Seria talvez mais fácil deixar a vida correr-nos ao lado, sem tentar conhecer os seus bastidores. Mas para espíritos curiosos não é solução apelativa. Um desafio é sempre um desafio. Seja para escalar montanhas ou apenas para pensar.

@2001-07-27 00:00

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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