A família era normal. Um pai, uma mãe, um irmão mais velho e uma irmã mais nova. As conversas que uma família sempre tem, os desacatos comuns que à noite terminam em tréguas. Os irmãos em batalhas com almofadas e despiques para ver quem comia a maior fatia do bolo. As prendas no Natal, as recomendações sempre que iam sair para longe, ou para chegar a casa mais tarde. Educação prendada, ensinamento de valores éticos, morais, espirituais. Uma educação boa, para o preparar para o futuro, para a vida.

Foi educado com duas certezas na vida: a morte e o valor da honestidade. Os pais diziam-lhe ano após ano – mesmo quando fez vinte e um anos e se sentiu adulto – que na vida deveria sempre ser honesto e respeitar os outros, que devia levar uma vida certinha, com dignidade, «para dormires sossegado com a cabeça na almofada» dizia-lhe o pai, «para andares sempre com a cabeça erguida» dizia-lhe a mãe. E a morte era uma certeza, que na educação espiritual que tinha lhe dizia que era nessa altura que prestaria contas a Deus por aquilo que tinha feito em vida. Nesse momento iria mostrar as coisas boas e as coisas más, iria ver com os olhos de Deus os seus pecados, e por isso era importante levar uma vida digna. Sem manchas. Feita de valores e princípios inabaláveis. Certezas. Dogmas.

Os estudos foram correndo ano após ano sem grandes precalços. Conheceu muita gente, coleccionou vários inimigos que invejavam ou não compreendiam a sua maneira de ser. Sempre lhe foi crescendo a ideia – totalmente fundamentada – de que a melhor maneira de viver em sociedade era trapacear, apunhalar pelas costas. Pensou mesmo para si que de nada lhe servia ser como era, honesto e respeitador. Porque ninguém era assim, porque esses valores estavam em decadência, num clima de desvalorização da Palavra, da Honra, em que todos os princípios são facilmente descartados e a apologia do salve-se quem puder é a tónica dominante. Mas não era capaz de deixar de ser assim. Não era capaz de esquecer, contornar, ignorar, a educação que tinha. As coisas que ele fazia e pensava. Ele era assim, ponto final.

Mas nem só de inimigos se foi recheando a sua vida. Meteu ao bolso alguns amigos também. Poucos, menos que os dedos das mãos, mas de confiança. Ou de alguma confiança. Interrogava-se tantas vezes sobre se era seguro depositar total, plena confiança em alguém, para além dos pais e de Deus. Mas invariavelmente depositava a sua confiança nos amigos, e talvez por isso, ao longo dos anos, foi se afastando de alguns deles, quando descobria fugas, pequenas ou grandes traições à confiança que neles tinha depositado. Mas seguia em frente. Algum azedume, alguns dias de expressão mais pesada, cinzenta, mas depois o dia voltava a sorrir-lhe, e a seguir a um amigo perdido vinha outro ganho. Foi através de um amigo que conheceu a sua terceira certeza. Já tinham trocado olhares ao passar um pelo outro. Já tinham utilizado a linguagem do corpo para comunicar o interesse, mas as palavras – esse instrumento tão ambíguo – ainda não tinham conhecido o ar entre eles. Foi preciso um amigo, em quem depositou confiança total, para os aproximar. Um amigo que falou aqui, falou ali, e aconteceu a aproximação. A terceira certeza da vida dele estava conquistada. Estava apaixonado, amava perdidamente, e o amor entrava para a vida dele como uma certeza inabalável, a seguir à morte e à dignidade que devia ter vida fora.

O amor atropelou-o na vida. Caiu-lhe em cima, entrou-lhe pelas narinas e instalou-se nos pulmões. A osmose levou-lhe o amor para todo o corpo. O cérebro pensava mais depressa, o sangue corria mais depressa, os sapatos andavam sem ele, puxavam por ele na rua, até os perfumes eram mais intensos. Ganhou vida, ficou mesmo, pode dizer-se, inchado com tão nobre sensação. Que bom é amar e ser amado, pensou ele. É a única coisa que verdadeiramente dá côr à vida. «Sem amor», disse mesmo aos seus amigos, «a vida não tem… vida». E todos concordaram. Uns mais que outros. Nem todos tinham ainda descoberto o amor da vida deles. Ou se tinham, nem sabiam.

Os dias dele eram dias azuis. Azul do céu. Sem nuvens, sem tempestade. Eram dias em que acordava e imediatamente se lembrava do rosto dela, das palavras que ela lhe dizia quando se encontravam. E enchia-se de felicidade. E surgia um sorriso na cara dele que durava todo o dia. E nenhuma tarefa parecia penosa o suficiente se servisse para a encontrar, para estar com ela nem que fossem escassos minutos. Apenas 5 minutos com ela bastavam para sentir-se reforçado, com carga nova nas baterias. Era feliz, e fazia-a feliz. Que mais podia ele querer? Tinha certezas. As suas três certezas inabaláveis. O resto eram cantigas. De embalar, ou mesmo do bandido.

Estava feliz, vivia feliz, quando uma amiga se aproximou dele para lhe dar um abanão nas convicções. Ele era, afinal, um homem de convicções. Um homem que acreditava piamente nos seus princípios, que se dizia incapaz de os atraiçoar, fosse pelo que fosse. E assim lhe disse, sem rodeios, que entre eles nada feito. Tinha já descoberto o amor por outra mulher, e isso, disse-lhe «é uma certeza que eu tenho. Amo-a muito e jamais a largarei. Sou incapaz de me imaginar com outra mulher». E ela ouviu. Entristeceu-se perante tanta convicção, tanta frieza e determinação nas suas palavras. Mas não desmontou o cavalo, não desistiu, disse-lhe «não desistirei de ti, vou lutar por ti, porque te quero».

Encolheu os ombros. Não havia argumentos a dizer-lhe para além daqueles que já tinha dito. O que poderia ela querer, ou que valor poderia ele dar-lhe se ela estava determinada a lutar por uma coisa que não podia ter? Se lhe tinha dito que estava envolto em amor, que direito tinha ela de interferir e lutar para o conquistar, se ele já estava conquistado e literalmente fora do mercado? Ficou simultaneamente aborrecido e assustado. Aborrecido porque não queria perder a amizade dela, assustado porque temia as atitudes que aquela mulher, mordida pela paixão, pudesse ter para prejudicar a sua relação, que ele colocava em primeiro lugar, acima de todas as coisas.

Não se afastou. Continuavam amigos, dava-lhe atenção, como sempre. E ela sempre ia dizendo que o amava, e que queria estar com ele, ficar com ele. Todos os dias. De todas as maneiras. E ele sempre dizendo que não. Que tirasse essa ideia da cabeça. «Não é normal! Não é saudável! Segue a tua vida, não persigas uma ilusão, uma coisa que não faz sentido. Não estragues a amizade ao perseguir as tuas miragens», dizia-lhe ele tantas vezes. Mas ela insistia. Era como a água mole em pedra dura.

E os dias passavam, e ele sempre defensor das suas convicções. «Estou apaixonado» dizia ele para si. «Sou fiel», pensava ele quando resistia a cada investida. Mas também não se afastava dela. Pensava que era possível manter-se amigo, ignorar aquilo que ele julgava que era apenas uma fase passageira. Tinha confiança em como ela acabaria por caír em si, abrir os olhos, e perceber que as coisas não eram como ela pensava, que esse amor não era bom para ambos, que apenas uma amizade saudável devia existir ali. Como sempre tinha existido, desde que se tinham conhecido. Tinha fé em como ela seria sensata.

Mas ela não era. Nem sensata nem inocente. Era manhosa. De conversas sedutoras, falinhas mansas. Puxava por ele, espicaçava-o para o seduzir, e ele deixava-se ir, não queria ser desagradável. Talvez até gostasse um pouco de ser espicaçado. Talvez lhe fizesse o sangue correr um bocadinho mais depressa. Mas nunca deixava de ter as suas certezas em relação ao amor. Ele era, e sempre seria, um homem apaixonado pela mesma mulher, e nada nele tinha mudado, nada era diferente. Apenas tinha de tentar endireitar, manter, uma amizade que ele julgava valer a pena. Apesar de tudo não queria perder aquela amiga, mesmo que o comportamento dela fosse impróprio para uma amizade pura.

Dia após dia ela fazia tudo para lhe fazer notar o quanto queria estar com ele. Chegava mesmo a amuar, fingindo, para lhe causar pena, para o fazer correr em seu auxílio, para o fazer dizer-lhe palavras de consolo. Tudo o que ele fazia era para a confortar, para a fazer sair daquela ilusão, para lhe dizer que queria ser amigo dela, para sempre, mas só isso. Era para lhe dizer «não me ames, porque eu não te amo, pelo menos não como tu. Amo-te apenas como um ser humano que prezo muito, mas não vejas nisso nada mais, não procures mais vontades nem desejos, porque não as tenho para te dar. Eu amo outra pessoa, respeita isso. Nunca te menti, sabes isso tão bem, porque insistes em amar-me? Porque não vives a tua vida? Nunca te dei razões para te envolveres comigo desta forma».

E o cansaço foi-se apoderando dele. Foi-se cansando de ouvir, dia após dia, as declarações de amor que ela lhe fazia. Foi-se cansando de lhe dizer sempre as mesmas coisas, que ele tinha certeza no amor que sentia, e que não poria esse amor em risco por nada do mundo. Foi ficando farto, ao mesmo tempo que crescia nele a pena por aquela mulher que se dizia tão apaixonada. E ele sem poder corresponder. Queria dar-lhe algo mais, se isso lhe acalmasse o sofrimento, mas não podia. Nem queria. Queria sem querer. Algo mais, que não fosse dele. Queria, é isso mesmo, dar-lhe mais alegria, mais amor, não dele, mas de alguém. Queria que ela fosse feliz, que vivesse bem, com tudo de bom.

E ela sempre ali, todos os dias com insinuações, com um discurso sempre igual ao do dia anterior. Dizia que o amava, oferecia-se para tudo com ele, dizia-se no pico da paixão e capaz de qualquer coisa, até casar. E o cansaço apoderou-se dele, foi vencido por ele, e um dia, ao saír com ela, deixou que ela o beijasse. Desligou-se, nem sabe bem como. Nem se lembra, não teve ideias a passar-lhe pela cabeça, não pensou em mais nada, ou talvez tenha, lá dentro, sentido que devia dar-lhe um beijo e saciar-lhe a fome, e depois tudo voltaria ao normal. Mas nem teve tempo, e a seguir ao beijo veio outro, e despertou nele a vontade de fugir e correr para longe, mas nem teve tempo. Na manhã seguinte acordou com uma profunda mágoa, vestiu-se desolado, olhou para ela com as lágrimas a escorrer-lhe pela cara e partiu. Partiu sem destino, porque não o tinha.

E nem via nada, tinha os olhos encharcados, o coração aos saltos, a consciência pesava-lhe e calcava a cabeça sobre o pescoço e este sobre os ombros e todo o corpo sobre os pés, e sentia-se um fardo pesado que ninguém pode carregar. Era miserável, sentia-se miserável. Foi quando percebeu que tinha de honrar os seus valores. Foi ter com quem realmente amava.

– Preciso falar contigo…

– Não gosto da tua cara, nem da tua voz. O que se passa contigo?

– Sinto-me mal. Muito mal, nem sei como começar. Nem por onde, nem de que maneira, apenas sei que devo começar. Que preciso abrir a minha alma contigo. Porque está negra.

– Não, definitivamente não gosto do teu tom de voz. Nem do brilho que tens nos olhos, nem das tuas tremuras, assustas-me tanto com isso. Diz-me, mas depressa.

– Desculpa. Só posso pedir-te desculpa. Perdão. Que me perdoes. Que me ames. Porque eu falhei.

– Que se passou contigo, diz-me, por favor. – romperam as primeiras lágrimas nos olhos dela.

– Fui fraco. Miserável. Perdi-me pelo cansaço e fui contra todos os meus valores. Envolvi-me, ou antes, deixei-me envolver. Fui para a cama com ela.

Ela levantou-se. Cambaleando. Olhou para ele, enquanto chorava e a sua face adquiria uma expressão de profunda tristeza. Ainda lhe disse «como foste capaz?» antes de virar as costas, e afastou-se. Ele vendera todos os seus valores, os princípios, a dignidade, honra, respeito. Tinha-lhe faltado ao respeito. Tinha faltado ao respeito a duas mulheres, a uma porque a amava e a traiu, a outra porque lhe deu uma ilusão de algo que não podia ter. Foi demais. Levantou-se e correu em direcção a ela, para lhe tentar explicar, se conseguisse, como tudo tinha acontecido. Para lhe pedir perdão, precisava do perdão, e queria dizer-lhe que amava acima de tudo, mesmo tendo sido fraco, mesmo tendo falhado. E correndo para ela, lavado em lágrimas, nem viu o automóvel a aproximar-se. Foi um barulho seco, toda a vida a correr-lhe nos olhos em milésimos de segundo. Caiu no asfalto a alguns metros dali, com os olhos abertos a olhar para ela.

Enquanto se distanciava conseguia ver tudo, ela a correr para ele, gritando e chorando, agarrando-o e tentando puxá-lo à vida. Viu a ambulância chegar, os paramédicos a tentar socorrê-lo. Viu tudo, mas teve de se ir embora. Estava na hora de conversar com Deus e dizer-lhe o que tinha sido a sua vida, que coisas boas e más tinha feito. Era chegada a sua hora. E partiu, sem mágoa.

Muitos meses mais tarde falou-lhe em sonhos e disse-lhe «quero que saibas que te amo muito, sempre amei, e mesmo aqui continuo a amar. O amor é eterno, quando é verdadeiro, e o meu sempre foi. Perdoa-me se te desiludi em algum momento, fui apenas mais um pedaço de fraqueza ao cimo da terra, e compreendi todos os meus erros quando a tive de deixar. Vive a tua vida em respeito, em dignidade. Aprende comigo, leva contigo as coisas que sempre te tentei transmitir. Nunca deixes que a pedra dura se deixe levar pela água mole que corre a todos os momentos. Lembra-te destas palavras, lembra-te que eu sempre estarei a olhar por ti, para te guiar. Que a paz esteja contigo. Amo-te muito». Quando ela acordou repetiu para si, baixinho «pedra dura… » e exclamou «também te amo, sempre amarei».

@2001-07-23 20:05

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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