As coisas de que se é capaz

Há tanto tempo ouço dizer que as palavras são como as cerejas… é um ditado popular antigo e, como tantos outros, muito acertado. As conversas, que se fazem de palavras, são também elas como as cerejas. Não vou revisitar as cerejas, de que já falei anteriormente, mas vou, isso sim, repescar uma frase importantíssima que foi atirada para o ar na mesma conversa que originou a minha intervenção sobre o último reduto da privacidade.

É legítimo que me perguntem qual é a frase importantíssima que me fez escrever-vos desta vez. A frase é esta: “O Amor (verdadeiro) exige mais de nós do que aquilo que pensamos estar preparados para aguentar.” Esta frase foi-me dita pela minha amiga Ana, com quem eu conversava acerca das casas-de-banho – lembram-se? – e na altura, apesar de ser uma frase que me leva para longe, não escrevi sobre ela. Estava mais inclinado para discutir a importância das casas-de-banho nas relações amorosas. Mas agora, que já falei disso, vou-me dedicar à tal frase. É rica, cheia de significado, ponto de partida com tantas ramificações que vou tentar, mais uma vez, não me perder. Mas, como sempre, não prometo chegar a nenhum lado. O meu pensamento é analógico e cheio de curvas e contra-curvas. Se fosse digital era mais fácil. Mas também seria pobrezinho.

Bom, pensemos então em conjunto neste assunto. Que coisas exige o amor verdadeiro? Até que ponto somos capazes de ir em nome do amor? Seremos capazes de, à partida, imaginar as exigências do amor? Estaremos, alguma vez, preparados para viver de acordo com as necessidades que o amor impõe? Muitas. Depende. Talvez. Quem sabe. São as respostas que correspondem às perguntas anteriores. Respostas possíveis. Naturalmente não são universais. O amor é universal, mas a entrega que cada pessoa lhe dá é diferente.

O amor exige, ponto. Não é um sentimento simples, no sentido em que encerra uma imensidão de sensações e compromissos, sacrifícios, alegrias, sofrimentos. E, simultaneamente, é um sentimento simples, porque é basilar. O amor faz girar tudo e todos, é a base da vida. A complexidade do amor reside talvez nas consciências dos enamorados. O amor exige entrega. Dedicação, respeito e carinho mútuo. O amor faz com que o objecto do nosso amor ocupe uma posição de destaque, de prioridade perante todas as coisas. O amor faz com que nunca se divida o nosso tempo com ninguém. Aquele que ama e é amado não tem de dividir a agenda da pessoa amada, não tem de marcar hora para a consulta, não tem de tentar encaixar-se nos tempos livres da pessoa amada entre cada outro compromisso com estranhos ao amor. Ou pelo menos não devia. Se isso acontece, é preciso conversar.

E então? Até onde estamos dispostos a ir em nome do amor verdadeiro? Cada um dará a sua resposta. Eu dou a minha: a qualquer lado, por Terra, Água e Ar.

Por terra, água e ar avança-se demolindo todas as ameaças que se nos apresentam na vida. Ou pelo menos tentando, porque algumas ameaças são difíceis de demolir, e outras são mesmo impossíveis. Mas tenta-se. Nunca se desiste. Aquilo que é nosso defende-se com unhas e dentes, defende-se utilizando todos os meios ao nosso alcance. Sejam bonitos ou feios, legítimos ou censuráveis. O nosso espaço, as coisas que conquistamos com esforço, defendem-se de tudo e de todos.

A vida está cheia de ameaças, de perigos. À espreita há sempre qualquer coisa, ou alguém, para nos tirar o que é nosso. Para nos subtraír das coisas mais importantes, aquilo que mais prezamos, o que nos levou mais tempo a construír, a ganhar, seja com suor ou palavras. Há sempre alguém disposto a meter-se no nosso caminho. Há sempre alguém com interesses que colidem com os nossos. Há sempre quem nos julgue carne-para-canhão, lixo, figura desprezível. Há sempre quem não se importe de nos apresentar o conceito de mágoa para conseguir o que quer. Há quem não tenha valor, saltando por cima dos outros, saltando por cima de tudo, roubando as galinhas aos vizinhos. Há sempre quem faça como o Rei David, sacrificando a única ovelha do vizinho para não sacrificar uma das suas. Há sempre quem seja assim.

A vida tem sacrifícios, tem opções que é preciso tomar. Abdicar de certas coisas a bem de uma causa maior. Estamos preparados para abdicar das coisas que gostamos em nome do amor? Precisamos estar, porque pelo amor larga-se tudo, larga-se qualquer coisa, não interessa o quê, não interessa quem, não interessa nada. Se o amor me diz para ir por ali, eu vou por ali. Se me mandar ficar aqui, eu fico aqui.

Acho que na generalidade nunca estamos verdadeiramente conscientes daquilo que o amor é e das coisas que ele exige. Porque começamos pela paixão, que é mais evidente. O amor é um sentimento muito mais forte, mas também mais subtil. Esconde-se atrás da paixão. Por isso é que, quando a paixão desaparece – suponho que sempre desaparece – tem de existir amor, caso contrário as pessoas separam-se. Vivemos a paixão com um aliciamento tal que nem sequer pensamos nos sacrifícios que o amor nos pede. Diria mesmo que a paixão nos leva, por vezes, a contrariar o amor, a exibir comportamentos contrários ao amor. A paixão leva-nos, por vezes, a traír o amor. É uma pena. É uma idiotice… traír uma coisa tão verdadeira com outra, tão efémera e por vezes ilusória.

E quando essas coisas acontecem, até onde vamos? O que significa o amor para nós? Quando estas coisas acontecem, há sempre um traidor e um traído. E onde vão essas pessoas? Até onde vai a vontade de preservar o amor, até onde vai o esforço por endireitar tudo e começar de novo?

O amor exige tanto. Exige o impensável. Até mesmo desaparecer da face da terra, apagar a nossa posição do mapa. Exige coisas impossíveis. Exige esquecermo-nos de nós próprios, negarmo-nos a nós próprios. Quem dá valor a isto?

@2001-07-22 20:03

Posted in Crónicas curvas

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