Não sei se todas as pessoas pensarão assim, mas sinto-me inclinado a afirmar, com uma certa dose de confiança, que todas as pessoas vivem, em certa altura das suas vidas, à espera do que consideram ser a pessoa certa para elas, a alma gémea, a cara-metade. Aquela outra pessoa que consideram ser a peça do puzzle que encaixa na perfeição. A atitude de cada pessoa, perante isso, pode ser activa ou passiva. Ou procuram essa pessoa certa ou limitam-se a esperar que ela caia aos trambolhões e aterre nas suas vidas. Apetece-me perguntar o que é isso da pessoa certa? Existe?

Por esta altura, todos aqueles que lêem as minhas divagações, já sabem que eu me assumo como romântico-terminal. Que acredito naquelas coisas que normalmente se encontram nos contos-de-fadas, que sou adepto de amores para toda a vida e que tenho muita dificuldade em aceitar discursos frios e calculistas sempre que o tema são os sentimentos humanos. Tudo isso é verdade, mas neste caso da pessoa certa sinto-me capaz de ter um discurso bem mais frio e solto das convicções pessoais, até mesmo porque já tive ocasiões em que me interroguei acerca da validade dessa noção de “pessoa certa”, ou “perfeita para mim”. O que é afinal isso, e que validade tem?

Que fique claro, antes de mais, que eu acredito na existência de uma pessoa certa, que sinto, aliás, já ter encontrado. Mas não acredito que essa existência seja instantânea, uma coisa que salta do pacote com adição de água, uma coisa com a qual se esbarra no caminho. A minha ideia sobre a pessoa certa é aquilo que vos vou apresentar em seguida.

A ideia clássica de “pessoa certa” pode não passar de uma ilusão. Com mais de 5 biliões de seres humanos à face da Terra é no mínimo uma presunção descarada achar que se encontrou a pessoa certa ou que ela vai aparecer de um momento para o outro. As probabilidades estatísticas são um desafio para que tal aconteça, ou então, por alguma ordem cósmica ou divina, a distribuição das pessoas certas por esse mundo fora seria sempre tão favorável que as suas vidas se desenrolariam sempre muito próximas das nossas. Parece-me improvável. Daí resulta que, a meu ver, nunca ninguém se pode dar ao luxo de afirmar, peremptoriamente, que encontrou a pessoa certa, ou que a vai encontrar. Também por isso me parece errado adiar ou evitar relacionamentos bons apenas porque ainda se espera que apareça a pessoa certa. Pode não aparecer, ou então, pode já ter aparecido, mas ainda não ter sido descoberta.

Para mim, a pessoa certa começa por ser a “pessoa mais certa” de um determinado momento, e isso resulta de inúmeros condicionantes como o número de pessoas que se conhece, o tipo de vida social que se leva, o número e tipo de contactos que se estabelecem dentro e fora do grupo de amigos, entre outros. Quando nos sentimos atraídos por alguém, quando se despoletam os mecanismos que nos fazem correr o sangue mais depressa e pensar nessa pessoa com mais intensidade e prazer, isso não significa que essa seja a “pessoa certa” porque se esperava. Significa que, até ao momento, de todas as experiências tidas, aquela pessoa é “a mais certa”. É aquela que, até ao momento, nos toca com maior profundidade. E nesse momento estabelecem-se laços que se aprofundam. Trocam-se cumplicidades, carinhos, afectos, segredos entre os dois. A relação cresce e desenvolve-se sobre as bases criadas.

É nesse momento que, quanto a mim, se pode dizer “esta é a pessoa certa para mim”. Certa não porque surgiu assim, com esse atributo, perante nós, mas sim fruto de um processo de consolidação, de aprofundamento de laços afectivos, que tornam essa pessoa muito especial e indispensável para nós. É fruto da entrega que damos a essa pessoa, e, idealmente, que ela nos dá a nós, já que uma relação unívoca não tem grande futuro. Aliás, uma relação unívoca não é, em abono da verdade, uma relação.

Na sequência deste raciocínio parece então ser apropriado formular esta questão: “Então, se estamos com uma pessoa e nos aparece outra que nos parece ser ainda mais certa do que aquela com quem estamos, o que fazemos? Deixamos a actual para perseguir uma relação com a outra pessoa que nos parece ser a tal?”

A minha resposta, que é apenas isso, “minha”, é NÃO. Não deixamos a pessoa que temos para perseguir outras. Da mesma maneira que nunca podemos ter a certeza de ter a pessoa certa, e como tal ser ilusório ficar uma vida à espera disso, também não podemos saltar de pessoa em pessoa, procurando relacionamentos perfeitos. Até mesmo porque a pessoa com quem estamos, em virtude dos laços criados e da cumplicidade com que se vive, passa a ser, para todos os efeitos, a nossa pessoa certa. Passa a completar-nos, a ser uma parte de nós, e por isso a merecer o nosso mais absoluto respeito e amor. E seria prudente abandonar uma relação que se conhece e que funciona – naturalmente estou a ignorar os casos em que a relação existente não funciona – para perseguir uma coisa desconhecida, sem garantias de resultar? E depois, se não funcionasse, o que quereriamos fazer? Regressar para a relação anterior? E seria isso justo ou correcto para a pessoa para quem regressavamos? Não seria brincar com os sentimentos dela? “Espera aí que eu vou ali ver como é e já te atendo?”.

Posso até recuperar a ideia da galinha do vizinho, que me levou a escrever um outro artigo que possivelmente já terão lido anteriormente. Encontraremos na vida muitas galinhas atraentes, capazes de nos fazer desvalorizar a nossa própria galinha. Podemos mesmo achar que essas galinhas são bem melhores que a nossa, e podemos até cometer a asneira de largar a nossa galinha para perseguir essas outras galinhas novas e atraentes. Mas elas nunca serão melhores que a nossa galinha. Porque não têm consigo o significado que uma relação consolidada tem, não foram acarinhadas nem nos acarinharam, não têm a cumplicidade que a nossa galinha tem, são estranhas ao amor.

A pessoa certa que nos dá um encontrão na rua, digo-vos, é uma ilusão. A verdade da pessoa certa é que ela é o fruto do relacionamento entre dois seres humanos que se conhecem por quaisquer razões e aprofundam os laços entre si. E a partir desse momento, mas só a partir daí, passam a ser, um para o outro, as pessoas certas, as almas gémeas, o mais-que-tudo, o tesouro um do outro. Uma boa relação, saudável, bonita, é uma coisa que se constroi com o tempo e que assenta na amizade e no amor, impulsionada pela paixão. Não é o fruto de um encontrão na rua. É mais complexo que isso.

@2001-07-11 20:01