Carreguei num botão. A conversa acabou. A linha ficou livre para outras coisas. A tua voz deixou de ecoar no meu ouvido, e a minha calou-se, deixaste de me ouvir. Fica o silêncio e a meditação. Das minhas palavras, das tuas palavras, de cada pausa, vírgula, ponto final. Cada coisa que me disseste fica agora a bailar-me na memória. E a memória define o Homem. Sem memória, nada.

Disse-te tudo, ou quase tudo. Não. Nunca disse tudo. Nunca se diz tudo, não dá. Fica sempre uma vírgula por colocar no sítio certo. Nem todos os pontos finais são correctos. A entoação falha aqui e ali. E o meu discurso, que nos momentos de solidão é tão eficaz, perde-se em folhas que o vento leva quando to tento dizer. Mas então sou mais eu, são mais as minhas verdades, daquilo que sou. Poupo-te a um discurso frio, analítico. O poder de uma frase forte transforma-se na debilidade de uma frase sentida, com emoção, com esforço, daquelas coisas que se arrancam do fundo de nós próprios, dos recantos que nem sempre sabemos que existem. Quando as palavras sobem bem lá do fundo, e quando abrimos a boca é como se dela saísse um estrondo. Sem deixar marcas. O ar levou o som, o vento leva-nos a fala para longe. Eu aqui. Tu ali. O mesmo espaço, em sítios diferentes.

A tua voz guia-me na noite. Seria capaz de segui-la em qualquer direcção. Mas as palavras são uma fonte de maus entendidos. As coisas que dizemos são uma fonte de problemas. O silêncio, nada bate o silêncio. E os gestos. E as coisas que fazemos. Por nós, por ti, pelos outros. Quero rejeitar o discurso. As perguntas para as quais sabemos as respostas. Quero ver os teus lábios formar palavras sem som. Quero ver a forma que tomam, e então perceber tudo. Mas sem ouvir. Só vendo. Sentindo. As palavras que se ouvem enganam, as palavras que se lêem enganam. As palavras que sentimos são as verdadeiras, em puro silêncio.

São as palavras que me dizes quando olhas para mim, as palavras que me dizes quando me tocas, quando me abraças. São essas palavras que eu quero. São as únicas que têm realmente significado para mim, que não enganam. Não escondem.

O silêncio é a coisa mais bela do amor. Dispensa palavras bonitas. Momentos de rasgo artístico. Inspiração divina. É a demonstração da intimidade, quando não me embaraço nem me importo com os momentos de silêncio ao pé de ti. Quando o silêncio é capaz de te transmitir mais coisas do que este imenso discurso disconexo. Quando, novamente, estiver perto de ti não te quero dizer palavras de paixão. Um beijo, um abraço, o olhar fixo no teu. E o silêncio. Dos meus gestos farás as frases.

@2001-06-18 19:58