A galinha do vizinho

A galinha do vizinho, costuma dizer-se, é sempre melhor que a nossa. Não existe maior mentira, mas este ditado tão popular não deixa de ter razão de ser, porque efectivamente são muitas as vezes em que as galinhas do lado nos parecem melhores que as nossas. Mas volto a dizê-lo: é uma ilusão. As nossas galinhas, quanto mais não seja porque são nossas, serão sempre as melhores galinhas. E o efeito do tempo prega-nos uma partida muito perigosa: leva-nos a esquecer ou a deixar de notar o quão valiosas são as nossas galinhas. As qualidades e o valor que elas têm. As nossas galinhas são isso mesmo. Nossas. E por isso devem ser respeitadas, acarinhadas, vistas com um olhar verdadeiro que percebe que são do melhor que há. As melhores galinhas.

A armadilha do tempo é o que nos faz, aqui e ali, fechar os olhos durante alguns momentos e pensar que já se viu tudo o que havia para ver nas galinhas que temos. Julgamos que já deram tudo o que tinham para dar, que não nos guardam mais segredos nem aventuras, ou capacidade de surpreender. E é então que olhamos para as galinhas do vizinho com aquele ar de novidade. É uma galinha nova, pensamos. Deve ter muitas coisas atraentes, descobertas novas, é uma galinha que traz consigo um novo território inexplorado. E como ficamos enebriados com esse pensamento, esquecemos temporariamente as nossas próprias galinhas, deixamo-las à solta pelo campo. Confiantes de que as galinhas ficam onde estão. Claro que isto também se aplica aos galos. Também os galos da vizinha podem parecer mais interessantes e territórios de novidade a explorar. E também os galos podem ser esquecidos e deixados à vontade nos campos. É a mesma coisa. Mas como sou eu quem vos fala disto, pego nas galinhas e deixo os galos para quem quiser falar deles. O meu negócio é galinhas.

Mas então, enquanto estamos a apreciar a galinha do vizinho, eis que a nossa própria galinha, descontente com a falta de atenção, se vai afastando e depenicando aqui e acolá, até que a distância se torna tal que o galinheiro onde ela está deixa de ser o nosso. E quando olhamos em volta não resta senão perguntar: Onde está a minha galinha? Foi-se. É a resposta.

Nesse momento dá-se o valor, o verdadeiro valor, àquilo que – por falta de atenção nossa – deixámos de ter. A nossa galinha, tão valiosa e querida, foi depenar-se para outras paragens. É uma pena que só se saiba dar valor às coisas que se perdem. Deve ser o sentimento de perda, o vazio que deixam as coisas que partem, que nos criam condições para perceber as coisas como até então não se tinha percebido. Mas é pena mesmo assim.

As galinhas que nos surgem vida fora podem ser atraentes, vestir penas bonitas, andar de forma insinuante. Podem parecer galinhas de ovos saborosos, ou mesmo de ouro. Podem parecer coisas novas a descobrir. Podem ser galinhas novas a estrear, mas nunca serão tão boas como as nossas. Nada ultrapassa a nossa galinha. Porque é nossa, fruto de um processo que a levou a ser nossa, de coisas que cresceram, cimentaram, fizeram a base para aquilo que nos permite pensar nesses termos: a minha galinha.

Assim, bem vêem, é bem melhor nunca esquecer o quão valiosa a nossa galinha é, porque é muito mais doloroso perder uma galinha que era nossa, do que sofrer um pouco por não ter uma galinha que nunca o chegou a ser. E nestas coisas de vos andar aqui a atirar palavras para os olhos, é certo e sabido que vos quero sempre dizer qualquer coisa, como se fosse a moral da história. E a moral desta história de galinhas é simples. A nossa galinha é melhor que a galinha do vizinho, e merece toda a atenção do mundo, a nossa galinha deve aparecer sempre primeiro nas nossas prioridades. Nunca devemos pensar que as nossas galinhas já nos deram tudo o que tinham para dar. As galinhas têm uma capacidade impressionante de nos surpreender. E os galos também.

@2001-06-14 19:57

Posted in Crónicas curvas

One thought on “A galinha do vizinho

  1. Acho que vou imprimir alguns dos teus textos e usá-los tipo mantra, bússola ou assim… quanta sabedoria, pa!!! Eu passei anos a ser uma excelente galinha, a surpreender sempre que podia, fazendo malabarismos com os ovos, omeletes, trabalhos decorativos com as cascas, strip de penas e acabei noutro galinheiro por uns tempos…mas jamais voltei ao anterior.
    Continua sempre, estou a adorar (te)ler.
    Beijo
    Susana.

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