O Erro. Está em todo o lado essa figura. Encontramos o Erro em todo o lado, em todas as horas, nos sítios mais estranhos. O Erro, essa personagem fácil – porque é fácil errar – está nas contas, nas palavras, nos pensamentos, nos gestos. O Erro é a personagem mais representada em todo o mundo. Não existe nada de tão simples que não possa conter o Erro. O Erro é bem-falante, veste-se bem, tem bom gosto. O Erro apresenta-se sempre de acordo com as nossas concepções de elegância. O Erro, é. Ele próprio. Limita-se a ser.

O Erro é o rei do disfarce. Quem erra, nem sempre sabe que erra. Muitas vezes pensa que está tudo bem e tudo é normal, que é tudo muito natural e que nos seus comportamentos, o Erro é coisa que não existe. O Erro é mais rápido que a sombra, capaz de envergonhar o Lucky Luke. O Erro é mais veloz que uma bala. O Erro é adesivo. É um cola, um chato, um melga. O Erro está aqui e está ali. O Erro está no chão. Faz-nos tropeçar. O Erro senta-se nas nossas pálpebras, faz-nos ficar de olhos fechados. O Erro é calmante, relaxa-nos os sentidos e retira-nos a capacidade de alerta. O Erro é alucinogéneo, faz-nos ver coisas que não existem e aquelas que existem faz-nos vê-las como não são. O Erro é o Erro. Engana tudo e todos, menos a ele próprio.

O Erro é verbo universal. Eu erro, tu erras, ele erra. Erramos todos, eles também. Mas quantas vezes identificamos o erro apenas depois do erro feito? Quase sempre. É uma pena. A Pena vem a seguir ao Erro.

O que me preocupa é a identificação do erro. Cheirar e reconhecer o erro a milhas de distância, antes que ele se aproxime. Como o erro é veloz, temos de o reconhecer com muita antecedência, porque em escassos segundos somos alcançados por ele e depois a luta é muito mais difícil. Mas, como se pode conhecer o erro se não soubermos que estamos errados? O mesmo é dizer, se achamos que tudo o que fazemos ou estamos a fazer é normal, como vamos reconhecer o erro? Como podemos nós abrir os olhos a alguém que sabemos estar a portar-se mal, se a própria pessoa não reconhece que está a errar?Se calhar não podemos. Ou talvez possamos. Utilizando a técnica da estalada ou então, pura e simplesmente deixando essas pessoas errar, ceder perante o Erro. E depois do Erro vem a Pena. Já que não conseguiram identificar o erro, terão forçosamente de identificar a Pena. É que, bem vêem, a Pena é o reverso do Erro. É chato, não é?

O Erro é rei do disfarce, a Pena é a raínha da evidência. Quem sente Pena, sabe que a sente. A Pena não é rápida como o Erro. Chega mais devagar e prolonga-se por muito mais tempo. A Pena não é adesiva, nem cola, nem melga, porque não fica colada a nós. Arrasta-se atrás de nós, como uma sombra. A Pena não é calmante, não relaxa os sentidos. A Pena é atroz, realça todos os defeitos e mostra-nos os Erros com uma vivacidade tal que nos abre os olhinhos bem abertos. A Pena não é alucinogénea, não nos mostra coisas bonitas nem inexistentes: realça as realidades, mostra tudo a nú e a crú.

A Pena é uma pena, é a companheira do Erro. Não engana ninguém.

Bom, e então? O que tiramos desta conversa toda do Erro e da Pena? Tiramos muita coisa, se pensarmos, se dermos uso à massa cinzenta para algo mais do que a prossecução cega e inconsequente das nossas vontades mais primárias, de vivermos os momentos sem pensar no que vem a seguir a eles. E sobretudo tentar tomar consciência disto: há coisas que nos parecem normais, que não são. Há comportamentos que nos parecem normais, que não são. Há coisas que se dizem e fazem, que não se devem dizer nem fazer. Nem pensar. É que o Erro está sempre à espreita… e seria uma pena enorme deixá-lo tomar conta de nós.

@2001-06-06 19:49