O sol começou agora a descer no horizonte. A luz que me banha a face aquece-me, são os ultimos raios de sol que me visitam, chegam para me desejar uma boa noite, para se despedirem porque amanhã regressam.

Estou sentado na varanda que dá a volta à casa, numa cadeira que tenho virada para o melhor lado, da paisagem que mais gosto. Seguro na mão um copo com uma bebida que preparei, talvez a minha preferida, que é também a tua bebida preferida.

À frente da casa brinca o nosso cão, leva um osso na boca, abana o rabo, vem a correr ter comigo e olha para mim, quieto. Tenta talvez perceber-me, talvez tente dizer-me qualquer coisa. Devolvo-lhe o olhar meigo, largo o copo por instantes para lhe tocar, e ele corre de novo, desta vez para empurrar uns brinquedos.

Dentro da casa está o gato. Dorme no seu canto. Veio à janela há alguns minutos atrás espreitar-me. Viu que eu estava no mesmo sítio e voltou, pachorrentamente para o cantinho dele. E agora dorme.

O sol está quase a desaparecer. Restam apenas alguns centímetros de sol no horizonte, fica aquele calor do fim de tarde, aquela luz mais ténue e as nuvens côr-de-rosa ao longe.

Volto a pegar no copo, bebo um pouco mais. E fixo o olhar ao longe, no ponto em que o sol desapareceu. Continuo sentado. Oiço as crianças brincar a poucos metros de mim. Desvio o olhar, olho para elas. São belas. São nossas. Estão concentradas nas brincadeiras que conhecem, e não conhecem mais nada, nem temor, nem preocupação. São felizes, sentem-se bem, brincam como se o mundo estivesse parado a assistir à brincadeira. Para elas o dia não foi suficiente, há tanto para brincar ainda. Não pensam no ontem, nem no amanhã. Pensam apenas no momento, no presente. No gozo que sentem enquanto brincam.

Ao olhar para elas sinto-me feliz. E esboço um sorriso. Talvez me lembre de quando era eu a queixar-me do fim do dia, do final das brincadeiras, de quando havia ainda tanto para fazer com os carrinhos e os legos.

Talvez me lembre de quando o meu mundo deixou de ser um mundo de criança, de quando as coisas começaram a pesar-me. E recordo com saudade esses momentos, mesmo não querendo voltar atrás. Porque me sinto bem, porque cheguei até aqui. Porque estou sentado na cadeira que está virada para onde eu quero com o copo que eu quero, ao pé das nossas crianças.

E depois de esboçar o sorriso volto a fixar o horizonte. Uma brisa ligeira bate-me na face. Refresca-me por instantes. E dou por mim a pensar. A pensar que o mundo é uma coisa bela, que nós tudo fazemos por complicar. Que as coisas boas são simples. Que a vida pode ser simples. Que quanto mais simples for, melhor será. Melhor aproveitada, melhor vivida, dando atenção às coisas que são belas, que são simples.

Sinto-me invadido pelo desejo de atender às coisas simples e verdadeiras. Ao sorriso dos nossos filhos, às suas perguntas, às choradeiras deles, fazer-lhes companhia quando se sentem mal dispostos, ir aconchegar-lhes a roupa à cama. Defendê-los de tudo o que os ameace. Sinto-me invadido pelo desejo de te acompanhar em tudo. De te ouvir conversar comigo, quando me contas as coisas que viste acontecer ao longo do dia. De estar na tua companhia em todos os momentos. Ver-te sorrir, ver-te olhar para mim. Coisas simples. Não exigem esforço, dão-se sem procurar nada em troca.

Enquanto penso em tudo isto oiço um barulho familiar, que se aproxima. Chegas ao pé de mim, dás-me um beijo. Eu levanto-me. Pegamos nas crianças e entramos em casa. Entretanto ficou fresco na rua, e a luz é cada vez menos.

Atrás de mim fecho a porta.

@2001-06-03 19:48