O último reduto da privacidade

Dizer-se que as palavras são como as cerejas não é coisa que se diga sem propriedade. A analogia com esse simpático fruto é bem mais apetecível do que a analogia que me apraz estabelecer: as do magnetos. As palavras, mais do que puxar, atraem outras palavras, e começando aqui depressa se termina acolá.

As ideias que agora me preparo para vos apresentar foram o resultado de uma daquelas ocasiões em que uma conversa, por acção da “Lei da Atracção Verbal” – nome pomposo que inventei agora mesmo para definir a tal coisa das palavras e cerejas – dei por mim a chegar a um ponto totalmente distinto daquele em que havia iniciado a conversa. Deixo um “olá” à Ana e ao Luís, as duas pessoas com quem “comi as cerejas”!

Uma relação entre duas pessoas, ou antes, uma relação amorosa entre duas pessoas, baseia-se muito na cumplicidade, na partilha de espaços. Com quem estamos partilhamos a casa, a televisão, o sabonete, essas coisas. À medida que a relação evolui vão-se conquistando cada vez mais espaços na privacidade da outra pessoa. E essa conquista tem várias etapas, vários redutos que é preciso conquistar. A grande descoberta, como irão ver, não é saber quais os redutos a conquistar, mas sim a ordem em que se conquistam.

Pode começar das mais variadas formas; um arranjo de amigos, uma coincidência, alguém a quem se dá um encontrão na rua, ou mesmo o evoluir de uma longa amizade. Um belo dia o sangue corre mais depressa, a adrenalina começa a escorregar pelo corpo e ficamos acelerados. Se, com sorte, a outra pessoa sentir o mesmo, criam-se condições para se iniciar aquele que é um dos mais deliciosos processos, o processo da sedução. A seguir são os almoços, os jantares, as idas ao cinema, as prendas – é preciso gastar dinheiro para seduzir uma mulher. Uns olhos bonitos não chegam! -. Se tudo correr bem trocam-se os primeiros beijos – muito há a dizer sobre os beijos, fica para depois – e as mãos tocam-se, os corpos tocam-se, toca-se tudo. Por fim, cai-se na cama – no sofá? No chão? – e trocam-se fluidos corporais até se caír para o lado – nós caímos primeiro, elas depois -.

E pronto, em poucas linhas e em traços muito gerais se pode descrever a evolução de uma relação, desde o total desconhecimento até à última fronteira, o último reduto da privacidade: a cama.

Mas… será a cama o último reduto da privacidade. Falo-vos na cama não pela cama em si. Não é o colchão nem a armação da cama que me interessa, claro. O mais atento dos meus leitores saberá perfeitamente que com a cama me refiro à entrega do corpo, ao momento da relação em que a pessoa entende que pode confiar o seu corpo – e a alma, não são só os genitais – à outra pessoa. Em que se liberta de inibições e pensa “vamos lá, que isto é para a desgraça”. Enfim, a queca.

Mas regresso à minha anterior interrogação. Será a cama o último reduto da privacidade? Será que a última coisa a conquistar é o corpo da pessoa com quem se está? Um livre-trânsito para os seus orgãos genitais e áreas circundantes?

Não é! Existe ainda um último reduto. Um último espaço, no qual normalmente só se entra depois de passar pela genitalia. É caso para pensar “se queres cá vir comigo, tens de me foder primeiro”.

E então, nessa conversa de cerejas, dizia eu a certa altura aos meus dois ouvintes atentos, e que me desculpe o meu público – tenho um? – mas não o sei dizer de outra forma, porque com floreados perde a força toda. Ora, dizia-lhes eu então: “tu se calhar fodes um gajo, fazes-lhe um bico, mas… será que o deixas ver-te a cagar?“.

Ora este discurso carregadinho de impropérios sumarentos servia precisamente para defender a ideia de que o espaço de privacidade onde mais dificilmente se deixa entrar alguém é a casa-de-banho. Aquilo que se passa lá dentro é muito íntimo, faz-se de porta fechada, é onde fazemos as nossas caretas e assumimos posições de vulnerabilidade. É um espaço muito nosso, onde não estamos dispostos a deixar entrar qualquer pessoa.

Dir-me-ão então os mais rápidos: “oh, grande coisa, mas eu partilho perfeitamente a casa-de-banho com amigos e familiares“. Pois, está bem, não duvido que partilhem, mas eu aqui refiro-me mesmo aos relacionamentos amorosos ou mesmo aos flirts, não estou interessado nos relacionamentos familiares que assentam em bases bem diferentes.

Conquistar a partilha da casa-de-banho com quem amamos é subtrair-lhes – e sermos subtraídos – o último espaço onde eles ainda encontravam refúgio. Quando um casal partilha finalmente os seus momentos dentro da casa-de-banho, quando deixa que o outro presencie o alívio das necessidades biológicas mais básicas, é sinal que a relação é séria, é sinal que a coisa tem muita importância e entre essas duas pessoas existe um tal grau de cumplicidade que se sentem perfeitamente à vontade para tudo.

Não sei exactamente qual é razão para que as coisas sejam assim. Possivelmente trata-se de um qualquer caso de memória genética, uma reminiscência dos nossos antepassados do Cro-magnom que sabiam bem que enquanto faziam o seu xixi ou xóxó estavam vulneráveis, não fosse algum bisonte saltar-lhes à espinha e deixá-los em papa. E vai daí, evoluiu a espécie sabendo que era melhor refugiar-se durante esses momentos, isolando-se, fechando a porta, escolhendo os locais mais ocultos. É também uma questão de decoro, claro.

Surpreende-me então a ordem da conquista. Causa-me estranheza porque razão uma pessoa é mais rápida a entregar à outra o seu corpo, mas leva mais tempo a deixar que entre com ela na casa-de-banho. O que é, afinal, mais importante? Assim, bem me parece que temos levado séculos de história em que a tradição nos dizia que o valor melhor preservado era, por exemplo, a virgindade, quando na verdade não é. Aquilo que melhor se preserva é a privacidade na casa-de-banho.

Aqui, não entras!

@2001-05-03 17:16