É um exercício maravilhoso conseguir manter uma relação, namoro, casamento, whatever, nos dias que correm. É uma ginástica invejável, com a única desvantagem de que esta infelizmente não permite perder calorias – ou talvez permita, quem sabe.

A todo aquele que recusa a vida nas montanhas, vivendo num nicho nas pedras e alimentando-se de caça, vestindo-se com peles, não resta senão fazer pela vida, mantendo um emprego que lhe garanta os escudos suficientes (brevemente, os euros) para ao fim do mês assegurar o pagamento de todas aquelas contas que não se perdem no caminho para a caixa de correio.

É levantar antes das galinhas e correr para os transportes, almoçar a correr, e quantas vezes ficar no emprego até mais tarde para depois ir a correr para casa em cima da hora de jantar. E depois? Trocar uns monossílabos e caír na cama. Um dia de 24 horas reduz-se a escassos minutos de qualidade, quando a qualidade existe, com a pessoa que se ama.

A sociedade separa os casais, e se bem que isso venha, talvez, reforçar a qualidade das relações, porque as obriga a ser mais fortes em virtude do pouco tempo que se passa em conjunto, impede as pessoas de disfrutar em pleno a companhia da pessoa que se escolheu para passar, tanto quanto possível, os dias da vida.

Uma pessoa passa mais tempo na companhia dos colegas de trabalho do que com a(o) parceira(o). Lamentavelmente me parece que às tantas se desenvolve maior cumplicidade com os colegas de trabalho do que com a pessoa que encontramos em casa ao final do dia. Afinal, quantas são as coisas em que eu fico de fora? Afinal, quantas são as coisas que se passam no dia-a-dia da pessoa que eu amo, que eu jamais saberei? Parece que a vida profissional nos isola, e por vezes fica a incontornável sensação de que nós não sabemos tudo, que há partes da vida da outra pessoa que se passam fora de nós. E, afinal, quando amamos alguém não é precisamente o contrário que desejamos? Queremos estar sempre com essa pessoa, partilhar os momentos todos com ela, sem qualquer excepção.

E a chave de tudo é a comunicação.

Não podemos, no imediato, mudar a maneira como as coisas funcionam. É-nos exigido levar todo o dia a produzir – será mesmo isso que se passa? – qualquer coisa que nem sempre se sabe bem o que é, e que normalmente nem é para nós. Se queremos confortos na vida, temos de ocupar os dias a trabalhar em detrimento de tempo de qualidade com as pessoas. Não nos é permitido manter os laços afectivos em primeiro lugar, mas é importante comunicar. É importante valorizar todos os momentos que se passam com quem amamos. Todos os minutos contam, e todos podem ter grande qualidade. Afinal afinal, se é difícil estar com quem se quer, quando efectivamente se está, é muito bom. Mesmo quando não é tão bom, é bom à mesma. Nem sempre se consegue estar bem disposto, e nem sempre os dias correm bem, mas para quem é importante na nossa vida, um sorriso é sempre a melhor coisa a dar e a receber. Uma terapia excelente, de borla. Sem custos adicionais.

Falar. Falar muito. Contar à nossa cara metade as coisas do nosso dia. Como foi, como correu. As coisas que aconteceram, todas elas, as boas e as más. Fazer a outra pessoa sentir que mesmo não tendo estado connosco durante o dia, foi como se estivesse. Quebrar, partir, estilhaçar a sensação de isolamento, dizer-lhe “Estás sempre comigo”.

Sempre.

É um discurso desiludido este. Assumo. Assim como há dias em que a pessoa se levanta da cama para pensar na lógica da batata, há dias em que nos encontramos a pensar nas coisas em que mais ninguém pensa, excepto talvez na casa de banho, esse local mágico em que a mente divaga em todas as direcções (e onde quase sempre surgem as melhores ideias e teorias). E hoje, bem visto, dei por mim a pensar, desiludido, como o trabalho faz as pessoas que se amam ficar longe durante tantas horas, em que o que mais se queria era precisamente o contrário.

(p.s. – vítima daquilo que eu próprio descrevo, encontro-me neste momento fisicamente distante da minha cara-metade “trabalhadora”, mas quero dizer-lhe que ela está sempre comigo!)

@2001-05-02 17:14