Abri a porta. Entrei.

Com a deslocação do ar levantei algum pó. Espirrei. Meti a mão ao bolso e puxei o lenço. Depois deixei a minha mão procurar o interruptor e acendi uma lâmpada suja de poeiras, pendente no tecto. Fechei a porta atrás de mim e olhei em volta. A minha mente. Esquecera-me dela, como pudera ser… mas era, era assim. Porque um dia me havia sido conveniente, havia optado por me esquecer da minha mente, ou senão de toda, pelo menos deste bocado dela.

Tinha pela frente umas longas escadas em caracol. Tentei perscrutar o seu fim, mas as escadas da Torre perdiam-se de vista, lá em cima, no infinito. «Que grande a minha mente», pensei. O piso térreo estava desprovido de qualquer decoração. Eram só paredes lisas, suporte de neurónios, suporte de recordações, as minhas lembranças, as minhas vozes perdidas no tempo que deixei para trás, os odores, os perfumes que me traziam recordações de alguém muito próximo. Serias tu, seria alguém de quem não me lembrasse. Não sei, são odores importantes, mas ainda não consigo determinar a origem. Tenho a mente pêrra, ainda.

Ali não havia nada para ver, pensei. Foi assim que me lancei ao primeiro degrau. Tudo começou com o vento, tudo começou pelo vento, que arrastou as sementes para que fossem fecundadas. Com o vento forte que fustigava o penhasco, abanou a Torre de alto a baixo; como que para ver o que se passava lá em cima, fiz-me às escadas, às longas escadas de caracol. Pisei o primeiro degrau.

O primeiro degrau não me trazia nada de nítido. Tinha a sensação de estar apertado em qualquer sítio. Era quente, aconchegado e estava dentro de água. Às vezes sentia que alguém me apertava mais um pouco. Às vezes sentia que alguém me queria falar, mas eu não conseguia responder. Não consegui ver muito mais neste degrau, era pouco nítido. Muito pouco, mesmo. Sem mais curiosidade, fui em frente. Pisei o segundo degrau.

Aqui já não me sentia apertado, mas estava pouco confortável, não me sentia muito bem. Estava de cabeça para baixo e havia um homem vestido de branco que me dava palmadinhas nas costas. Senti enfiarem-me no nariz um tubo qualquer. Era esquisito, mas deve ter feito algo curioso cá dentro porque comecei a chorar e os homens de branco mostraram algum alívio. Finalmente levaram-me dali, embrulhado num cobertor. Não compreendia nada. Não sabia quem eram as pessoas que me olhavam. Depois levaram-me para ao pé de uma mulher… estranho, sentia uma afinidade tremenda, uma familiariedade peculiar. Não tinha sido nada assim em relação ao homem de branco que me havia segurado pelos pés. Deitaram-me ali ao pé daquela mulher e fiquei muito quieto. Queria dormir. Mãe.

Dormi muitas horas, descuidara-me e as horas haviam galopado que nem umas loucas. Enfim, já acordado era tempo de regressar à subida. Pisei a medo mais alguns degraus.

Depois veio a surpresa. Como que levitava pelo meio de todas as minhas lembranças de infância, pelas minhas lembranças dos primeiros anos de escola, pelas primeiras sensações, os primeiros receios. Estranho. Levitava por ali fora, vendo tudo, sentindo tudo. Muito estranho, pensei. Via os degraus passarem-me por baixo dos pés enquanto eu permanecia estarrecido pela nítidez de todas as lembranças, pela exactidão de todas as recordações que cada degrau continha. De repente parei; já tinha perdido a conta aos degraus, mas se olhasse para baixo já não via o chão, já não conseguia ver o começo das escadas. Era alto.

Foi nesse degrau que tu entraste pela primeira vez na minha vida.

Estava ao alto, sentado numa pedra, mas o terreno contrariava-me e lá ao fundo ainda era mais alto que o rochedo em que me equilibrara. Vi-te passar ao longe, ou antes, via-te passar ao longe todos os dias, quando te dirigias ao teu ambiente, quando fugias da agitação. Fui-me habituando a ver-te passar, fui-me habituando a estranhar todas as vezes em que isso não acontecia. Um dia percebi, era amor e admiti-o.

Pisei outro degrau.

Entrei na guerra. Entrei na guerra em que todos os homens um dia entram. Aqui não se ganha, sempre se perde, sempre se vai por terra. É uma batalha desigual, uma força que nos puxa sempre para baixo quando pensamos estarmos a ganhar alguma vantagem. Tudo ilusões, ilusões muito doces, mas ilusões. Amar entra na nossa vida e a guerra começa. Começam os planos, as escaramuças, as pequenas vitórias pessoais, a conquista de um beijo, a conquista de um carinho, de tempo para dar, preocupações por alguém. Não estar só. Entrei na guerra porque me apeteceu. Entrei na guerra porque me senti preparado para o fazer, mas não me protegera como devia, não levava as armas todas. Não. Estava disposto a aprender e a vencer com o mínimo possível de meios. Queria triunfar sozinho, sem artimanhas, mas depressa verifiquei ser difícil, e cedi.

Entrei na guerra e mais tarde na decadência, entrei num jogo pouco claro, naquela nuvem negra dominada pelo capricho feminino em que o homem nunca pode entrar, e se um dia se atreve nunca sai. Bem. Se sai, sai sempre mal, de joelhos, de rastos. Entrei na decadência da mendicidade. Mendigar por um beijo, mendigar por um abraço, mendigar por um olhar ou para dar a mão. A mulher torna-se rapidamente num elemento distante. Torna-se necessário pedir para conseguir. Torna-se necessário jogar até ao fim.

No fim morremos nós ou morrem elas; geralmente nós. Sortudas. Ficam cá e vão atazanar mais algum, é assim. Precisa-se mendigar muito. Se um homem consegue um abraço sem pedir, se um homem consegue um beijo sem pedir, se um homem consegue que ela lhe dê a mão sem pedir, é um homem feliz, é um homem que conseguiu subverter o sistema feminino. Quereria ter a fórmula para sempre, mas sei que pontualmente o consegui. Entra-se na guerra porque algo nos cativa, mesmo que por detrás do pano esteja a derrota; quem quer saber, não interessa. Interessa lutar, porque enquanto se luta, está-se vivo. O amor é assim.

Quando vieram os tempos de decadência, não estranhei. Vinha escrito de tempos perdidos no ciclo, que assim seria. O ciclo falava mais alto e era preciso que tudo se repetisse. Era necessário que o ciclo se mantivesse como sempre. Fechado e repetitivo. Não me conformei, fiz por quebrá-lo, fiz por contrariar a roda. Furei.

Furei porque valia a pena. Observei. Fiquei no limbo até hoje. Fui subindo, subindo, subindo. Sentindo todas as sensações da minha vida. Em certos degraus vivi tudo o que vivera outrora. Vivi o teu primeiro beijo, o teu primeiro abraço. Vivi a primeira vez que te vi nua, a primeira vez. Vivi tudo de novo; e distraído que estava não vi quando cheguei ao topo da Torre. Era o fim do percurso.

Aflitivo, pensei. Estava no topo da Torre, que não era o topo, não era o fim. Olhasse eu para cima e veria mais Torre, mais paredes, mas não havia mais escadas. Os degraus acabavam ali porque a minha história não acabava ainda; nunca ali. Ainda estava na evolução, ainda estava na aventura. Quando percebi isto, materializou-se mais um degrau perante os meus olhos. Magia. Da mais pura. Pisei-o e vi a imagem que ele trazia. Era eu. Era eu no degrau anterior a tentar perceber o final das escadas. Recordação mais imediata. Faltava-me viver mais, e perceber mais.

Perceber como as coisas são, umas falsas, outras verdadeiras. Perceber como era preciso engolir umas coisas para conseguir outras. Perceber que para conseguir harmonia é muitas vezes preciso acatar resoluções que não são nossas, é muitas vezes preciso suportar a presença de pessoas que nunca pedimos para ter na nossa vida. É preciso engolir tanto, e receber tão pouco nos segundos mais preciosos da vida. É preciso ter uma calma imensa, e aqui tanto se falha. É preciso ter muita paciência e compreensão. E aqui tanto se falha. É preciso ter fé na nossa capacidade de evoluír. É preciso viver, viver no presente sem que nos deixemos prender demasiado àquilo que o futuro nos possa oferecer. É tudo assim, tão claro, mas custa tanto lá chegar, custa tanto chegar aqui. Até que se chega, e o caminho parece desaparecer.

Deixei-me divagar, deixei-me pensar em ti. Sentir tanta cumplicidade, sentir tanto calor. Sentir que se te dou a mão é porque te quero, é porque fazes parte da minha evolução. Não sei até quando. Podes entrar na minha evolução para apenas sair daqui a uns tempos, ou talvez entres para nunca mais sair. Não sei. Não quero saber, por certo teria medo da resposta, teria medo de saber como vai ser. Podia não gostar das revelações do profeta. Deixo-me pensar em ti, deixo-me levar. Doces memórias, doces momentos, doce futuro. Abraço. Mulher. Preocupação.

Sentimos por fim que nos unimos. Sentimos por fim que nos queremos assim. Tu, a mulher que tenho, a mulher de quem sou cúmplice, que conhece a forma como sou feito, a trama com que me teço. Tu, de quem sou objecto de preocupação. Ternura, carinho, amor. Sentimentos. Vagos. Plenos. Quem dera. Quem dera serem eternos, quem dera serem sempre perceptíveis pelos humanos; mas somos pequenos, reles. Não deixamos que os nossos espíritos se alarguem, não deixamos que se revelem. Não deixamos nada, queremos tudo. Vivemos assim enfiados numa selva qualquer com a qual não nos identificamos nem um pouco, mas porque nos convém, ficamos lá dentro, a vegetar, a correr, a perder, desperdiçar, cada segundo vital, cada momento em que podiamos perfeitamente estar a viver alguma alegria. E para quê? Para quê, amor? Para quê, selva? Se perco o sentido, tenho-te a ti. A ti não perco, não posso perder. Tu podes perder-te de mim, mas eu não te posso perder. Podes-me perder, mas nunca me perderei, não se estiveres perto, não se sempre me quiseres. Se me mantenho vivo é porque o homem é assim, não se cansa de querer mais, de querer evoluír.

Tenho tanto para andar, tanto para fazer. Tanto para dar e não sei começar, não sei acabar. Queria estar no meio, queria estar contigo, queria estar assim. Hoje estou feliz, amanhã não sei, nem daqui a algumas horas. Sou como sou, como tu sabes que eu sou, como tu me agarraste. Chega o tempo das revelações, chega o tempo das descobertas. Chega o tempo em que as peças encaixam todas, em que o puzzle se torna único, nítido. Chega o tempo em que todos os meus degraus se unem, em que se tornam numa rampa, lisa, plena. Chega o tempo em que a evolução arranca veloz. Chega o tempo em que to digo. Que digo que te amo.
E hoje estou feliz.

@1995-10-06