E chegou o dia em que o Guardião se levantou.

Estava cansado e por isso dormia profundamente à beira de um penhasco numa pequena saliência. Com os anos havia-me habituado à rocha e desenvolvido com ela uma relação muito peculiar. Como se nascidos da mesma essência, eu e a rocha éramos apenas um. Daquele penhasco conseguia ver tudo.

O horizonte era vasto, em frente, e lá atrás, a encimar as rochas negras e a salvo das vagas marítimas, estava a minha Torre. Contemplava o horizonte muitas vezes, de dia, de noite, e era sempre o mesmo, sempre o mesmo brilhar, o reflexo do Sol, o reflexo da Lua, e assim me habituava aos ciclos, eternos, sempre assim, sucessão diária, universal. Monotonia enfim. Por vezes contemplava a Torre; era alta, tão alta, que a perdia de vista lá em cima, no pequenino ponto em que a cúpula da minha mente era tocada por um fragmento, sozinho, muito teimoso.

Esses eram companheiros da nostalgia. Não tinham, como eu, a mesma relação com a rocha, com a pedra fria, mas mantinham-se comigo, companheiros para a vida. Por outro lado não podiam, por si só, ir embora. Havia sido eu responsável em muito pela edificação da Torre, havia sido eu a dar-lhes energia para se colarem, lentamente, até formarem a imagem nítida que reflectia a luz e me oferecia um reflexo adicional no espelho do mar, ao lado do Sol, ao lado da Lua.
Por vezes contemplava a Torre e nem sempre era igual. Ela estava lá, e eu estava ali, na saliência do penhasco, aconchegado entre pedras soltas e um manto de ideias e fantasias, tecido com as mais finas palavras, tecido com a mais doce loucura. Umas vezes olhava a Torre e sorria. Outras, olhava a Torre e rolavam-me lágrimas, mas nunca era igual, nunca era a mesma coisa e nem sempre eram lágrimas de tristeza, ou sorrisos de felicidade. Nem eu sabia porquê, nem a Torre se atrevia a perguntar-mo ou sequer a tentar adivinhar.

A missão da Torre era apenas estar ali edificada para reflectir tudo e ao mesmo tempo reter, reter tudo o que o guardião pensasse ser útil para ele ou para a sobrevivência de todos os envolvidos. A Torre só tinha que estar ali e manter a sua imagem perfeitamente nítida, obtida com a junção dos pequenos fragmentos, todos eles saídos lentamente do manto do guardião, saídos do meu manto.
Ao lado da Torre cresciam ervas daninhas que me obrigavam periodicamente a sair do aconchego da minha saliência rochosa e a abater-me sobre elas, persuadindo-as a abandonar aquele terreno. Nesses dias, quando estava sol, permitia-me gozar de alguns minutos de calor e assim me deitava sobre a relva vendo a Torre perder-se no céu, tão perto de mim. Depois, voltava para a saliência onde passava as noites. E eram sempre as mesmas, noite após noite via os reflexos que houvessem para ver e sempre que a torre o entendesse, via projecções holográficas do mundo exterior, imagens que me chegavam sem querer.

Enquanto vivia na saliência, muita gente me observou. Algumas pessoas vinham pelo mar, em frágeis botes, outras vinham por terra e acercavam-se da torre, admirando-a, e outras ainda vinham pelo céu, caídas não sei bem de onde, para me fazer sair dali. Recebi mesmo a visita de quem pensava ser uma boa razão para abandonar a saliência, mas afinal estava enganado, era só uma ilusão. Deixei-me ficar.

Da minha saliência podia ver tudo, era excepcional. Nada me atingia, estava protegido pela rocha e pelo meu manto, que sempre ia acrescentando à medida que me ocorriam novos pensamentos. Assim, protegido do mundo, via o mar por um lado, a terra e a Torre por outro, e julgava-me seguro. Via o Sol abater-se sobre a terra, via a chuva cair, via as nuvens passar sobre a minha cabeça e sem me atingir. Às vezes, o tempo revoltava-se e eu, refugiado na saliência, conseguia ver os clarões dos relâmpagos e ouvir a trovoada. Aí, e só aí, olhava para a Torre com um olhar diferente e procurava imagens de alguém que temesse as trovoadas, de alguém que temesse os relâmpagos. A Torre acedia aos meus pedidos, por vezes, outras, não tinha como fazê-lo, e assim me aconchegava um pouco mais sob o meu manto, seguro de que tudo estava bem. Ao meu ouvido chegavam ecos de outras paragens, chegavam sons indistintos que pareciam provir de outras gentes, de outras vidas, não sei bem de onde ou porquê. Pareciam provir, talvez, daqueles que me queriam alcançar pelo mar, talvez dos que se atiravam no ar, ou daqueles que viajavam por terra. Nunca soube, nunca chegaram até mim. Levantei-me sozinho. Nunca os vi.

Um dia acordei; era cedo. Ouvia claramente o som do mar, água em fúria atirando-se sobre a rocha lá em baixo. Desloquei o manto que me cobria e espreitei. O mar era o mesmo, mas um pouco mais violento. Por curiosidade, para verificar se o meu mundo era o mesmo a que estava habituado, olhei para a Torre, talvez temesse que ela não estivesse ali, mas estava. Estranha, pensei. Estava diferente. A imagem era bela, saudável, irradiava calor e fazia-me sentir saudades. Farto do frio das pedras, levantei-me. Espreguicei-me e saí da saliência. Passos cuidadosos levaram-me dali para fora e pisei a relva, desta vez não para arrancar ervas daninhas, mas sim para regressar ao meu caminho.

Regressei. Estava já esquecido do caminho e tudo me doía. Os músculos, os pés. Estava cansado mas determinado a seguir em frente, determinado a alcançar o que quer que fosse que me esperava, e nem sabia o quê. Sabia apenas que precisava seguir, precisava procurar. Quando encontrasse, saberia.

Assim continuava em frente, e muitas vezes era obrigado a decidir, a enveredar por caminhos, sempre que diversos se me apresentavam. Eram sempre escolhas difíceis e as garantias de serem acertadas, completamente inexistentes. Joguei, apostei tudo o que tinha para apostar no jogo que me havia proposto, para o qual havia nascido, pelo qual havia abandonado a minha saliência confortável. Arrisquei-me a perder, mas precisava ser assim, estava escrito assim, tinha mesmo que tudo apostar e esperar que o vento soprasse a meu favor. Com o tempo e muito espaço percorrido, romperam-se-me os sapatos e os meus pés nús arrastavam-se pelo caminho, sangravam, doíam, mas continuavam. A missão estava por completar e o guardião precisava cumprir todos os pontos desta, mesmo desconhecendo o traçado, mesmo desconhecendo o prémio. Era imperativo, pensei, e fui em frente.

Pelo canto do olho podia ver tudo, podia ver aqueles que caminhavam a meu lado, podia ver o sofrimento dos outros, podia ver os seus esforços, conhecer as suas histórias, e, peculiarmente, podia ver uma pessoa estranha que nunca teria porque entrar no meu percurso, mas estava ali e estranho quanto baste, não me era desconhecida. Ignorei, julguei não ter qualquer relação com a minha pena e preferi olhar para trás e ver a Torre afastar-se. Pensava eu estar a caminhar para longe de tudo, perder o passado e procurar algum sentido, algum rumo que me pudesse levar à felicidade perdida em batalhas mais injustas, mais negras, mais sombrias. Pensava ser justificado o esforço que estava a fazer mas não deixava de sentir alguma pena em abandonar aquela Torre que tão dificilmente havia mantido de pé nos últimos anos. Não podia deixar de sentir pena de a abandonar, de deixar de ver o seu reflexo, as imagens que reflectia, o significado que tinha e o ardor que fazia sentir ao guardião, lá em cima no topo, no ínfimo ponto em que a Torre tocava a cúpula da minha mente. Mas parti. Virei costas e parti.

Estava decidido a tudo deixar, estava decidido a mudar radicalmente e a quebrar os laços com outras Torres, com outras mentes, outras cúpulas. Por muitas terras passei e muitas gentes conheci. Vi como eram, como se comportavam, como reagiam à minha passagem… e até deixei que algumas se relacionassem comigo, ainda que superficialmente. Em todas as terras era igual. Chegava, via e partia, em direcção à próxima paragem. Nunca mudava, nunca acontecia nada e assim começava já a desesperar. Julgava ser já altura de encontrar aquilo que procurava.

Julgava ser já tempo de saber, afinal, o que procurava eu. Com muita vontade lá me levantava e seguia. O meu caminho era em frente, vencendo obstáculos que se levantavam à minha passagem, para depois desaparecerem, como que apenas para gozar comigo. Vi paisagens diversas, percorri desertos, quebrei gelos e descansei em densas florestas, numa cabana construida no topo das árvores. Esporadicamente pensava em ficar por lá, no topo de alguma árvore. Viver no meio da floresta e alhear-me de vez da civilização, mas não sentia qualquer sinal cá dentro, logo não devia ser esse o meu objectivo. Acabava sempre por partir, por abandonar essa árvore, essa floresta, e seguir rumo à próxima. Foi sempre assim, e os dias iam passando, proporcionalmente à minha paciência que se ia esgotando, hora após hora, dias, semanas, meses.

Mantinha-me na esperança de ser recompensado pelo esforço, de um dia saber que tinha valido a pena esperar e caminhar sozinho, só assim podia vencer a inércia que me queria puxar para trás, que me queria devolver à Torre, à saliência. E para recordar a saliência, cheguei por fim a outro penhasco. O fim do meu caminho parecia ser ali, não tinha mais terra, não tinha mais nada à minha frente senão o imenso mar que batia nas rochas e as moldava a seu prazer. Tudo acabava ali, pensava.
Parei, procurei onde me apoiar e desci o penhasco até ao mar. Molhar os pés e sentar-me na pouca areia que existia ali, num cantinho aninhado no meio da pedra. Era bom, sentia-me melhor, poderia por fim descansar. Enganara-me. Olhei de novo o mar e vi aparecer um pequeno barco. Esfreguei os olhos, vi de novo o barco ao sabor das ondas e senti um chamamento muito forte. Não era qualquer canto, nem sequer sereias ali haviam, não havia ninguém. Só eu, as pedras, o barco e o mar. Era uma sensação de atracção. Por qualquer motivo precisava entrar naquele barco e seguir. Não estava ali bem, não podia ali ficar, e deitei-me ao mar. O barco permanecia quieto, como se tivesse vontade própria, resistia à força das ondas e nem sequer uma âncora tinha a segurá-lo. Quando o alcancei achei estranho estar vazio. Não havia nada, não haviam remos, nem motor. Sentei-me e não entendi. Nem entendi quando olhei de novo o mar e não reconheci o local. Não via qualquer penhasco, não estava no mesmo sítio. Como era possível ter-me deslocado sem me aperceber? Não tinha adormecido, não me tinha distraído ao ponto de não ver. Não entendi. Estava sozinho no meio do oceano, um qualquer oceano que desconhecia por completo. Não tinha nada, estava perdido num barco vazio. Pensei em atirar-me ao mar, talvez fosse essa a missão, mas assustou-me a ideia, não me via engolido nas águas.

Nunca tinha sonhado nada assim e por isso deixei-me ficar quieto e ver passar os dias enquanto esperava que as correntes me levassem a algum sítio mais agradável. Assim passei dias e acusava já o desgaste. Não comia, bebia apenas alguma da água que conseguia livrar do sal e estava cansado. Tão cansado que um dia adormeci com mais vontade que nunca. Não vi por onde andei e só acordei quando o barco bateu em algo. Foi de repente e assustei-me, levantei-me, olhei. Também não conhecia o local mas pelo menos era terra, parecia deserta mas era terra. Pisei a areia e caminhei até à floresta para procurar com que me alimentar. Era complicado, fora dos meus hábitos. Jamais, criado em ambiente urbano, poderia eu sobreviver muito tempo assim, faltavam-me certas noções essenciais à sobrevivência, mas animado pela missão lá me ia aguentando o melhor que podia.

Saciado, continuei e estranhei muito o que via acontecer pelos meus olhos. A floresta desaparecia aos poucos e dava lugar a imagens familiares. Reconheci a paisagem. Primeiro um arbusto conhecido, depois um caminho de que me lembrava, depois umas pessoas, paradas ali ao acaso mas que já havia visto algures. Parecia nascido ontem, parecia tudo estranhar e assim avançava devagar, olhando tudo com muita surpresa. Contemplei tudo e vi uma subida, a subida que tinha percorrido à partida, mas nessa altura tinha descido… seria possível? Só podia ser. Deixei-me de cuidados e corri, subi o mais depressa que podia e começava a ver tudo, começava a aparecer-me em frente a estrutura que tão bem conhecia. Parei. Estava à beira do penhasco, e perto, a saliência. Entendi tudo, tudo ficou extremamente claro para mim. A missão estava cumprida.

Tinha abandonado aquela vida, tinha fugido à descoberta e percorrido um ciclo, mais um ciclo da minha vida. Andei, sofri e cheguei ao mesmo sítio de onde tinha partido. Afinal era assim. Afinal tudo isto era assim e não havia porque ser mesquinho ou fazer tempestades. Tudo era assim e só assim, à volta, sempre a regressar às mesmas experiências. Confiante virei costas ao penhasco, virei costas ao mar, mas só por alguns momentos. Caminhei devagar em direcção à minha Torre e parei junto dela.

Abri a porta. Entrei.

@1995-08-10