A torre, o elo, a ponte

Imaginem-se vários fragmentos. Soltos. Peças pálidas de memórias, recordações, sensações perdidas na monotonia. Fragmentos ligados entre si por um único elo; ligados apenas por um ponto em comum: A pessoa que os guarda. E se um dia quiseram juntar-se, não foi porque quem os guardava o desejou. Sorrateiramente, pela sombra da mente, uniram-se. Fragmento a fragmento edificaram uma Torre. Primeiro, alguns fragmentos mais fortes, constituiram os alicerces. Alguns fragmentos mais determinados deram as mãos. Comprimiram-se, fundiram-se, colaram-se ao solo e deram uma superfície sólida para os outros se estenderem. Depois foi a vez dos outros. Colaram-se aos anteriores. Pachorrentamente foram subindo pelas costas dos outros fragmentos. Ajudavam-se mutuamente e provocavam dôr. Provocavam a dôr no guardião. A dôr. Mas suave, não era uma dôr física, não era uma dôr má. Era mais um ardor que alertava o guardião e o avisava do motim.

Mas o guardião não se mexia. A mente do guardião permanecia incauta, aberta às invasões, aberta a anos de ardor que os fragmentos faziam adivinhar. Os fragmentos iam subindo, subindo, e igualavam em altura as mais fortes sensações vividas pelo guardião. Por aquela altura, a Torre dos fragmentos igualava em altura a sensação do nascimento do guardião, da primeira visão do mundo do guardião, do primeiro beijo do guardião, do primeiro abraço, carinho, toque do guardião.

Os fragmentos podiam ter tudo o que quisessem. Podiam possuir todas as sensações, adivinhar as outras, flutuar, andar na água. A mente do guardião fornecia-lhes pela sombra toda a energia e alimentava-os diariamente com a visão da responsável pelos fragmentos. Felizes, estes iam subindo pelas costas dos outros e um dia tocaram o céu, a cúpula da mente do guardião. Este, sentiu uma picadinha leve e passou a observar a responsável pelos fragmentos com uma sensação diferente; sensação resultante da união dos fragmentos que agora tomavam uma imagem nítida, simples.

A Torre estava completa.

Muito se viveu dentro do guardião com sol, temperaturas amenas e nem um rasto de nuvens. A Torre desafiava o céu, confundindo-se com este lá no topo. Um dia, algo aconteceu que muito confundiu o guardião. Algo no mundo exterior, algo na vontade alheia, algo na mente de outra guardiã interrompeu o elo. No feliz domínio do guardião geraram-se tempestades, apareceram as primeiras nuvens. Os fragmentos, virados para o interior da Torre, ignoravam a tempestade e resistiam à chuva. Corrosiva. Àcida. Convencidos de que resistiriam a tudo e que por fim o elo triunfaria, não se agarraram bem. Lá, no topo da Torre, escorregou um fragmento.

Estilhaçou a imagem nítida, tudo regressou ao estado fragmentado. Fragmento esse que caiu, estatelou-se, rachou-se mas não se partiu. Ficou imóvel no solo da cúpula da mente. A Torre sofreu nesse momento fortes safanões. Abanava e ameaçava ruír. Com a queda daquele fragmento lá de cima, irrompeu um curso de água. Água que corria silenciosamente pela parede da Torre, que escorria pela casca do guardião. Acordado, em parte refeito da queda, o fragmento caído no solo, soluçou, soluçou muito e acompanhou o fiozinho de água para a casca do guardião.
Paralelamente aos soluços, e ao fiozinho de água, dentro da casca, dentro da cúpula da mente do guardião continuava a Torre a debater-se com a tempestade. Atacava a Torre a indiferença da casca do outro lado do elo. Atacavam a Torre os fortes ventos que iam arrancando fragmentos dos lados da mesma, que se estatelavam no solo, mas sempre sem se partirem. Caíam, refaziam-se da queda e juntavam-se, soluçando. A cada queda aumentava o fiozinho de água que escorria perto de duas entradas por onde os fragmentos recebiam o ar, ia-se engrossando e perturbava a visão do guardião.

Passaram dias, e mais que dias, passaram meses. O guardião, já se acalmara. O fiozinho de água não caía mais pela Torre. Das violentas tempestades só ficara a estrutura da Torre, mantida por alguns fragmentos mais teimosos. Cá em baixo, no solo, mantinham-se os outros fragmentos, derrubados no processo, que insistiam em soluçar. Era um soluçar diferente. Só. Melancólico. Sem a água da Torre. Era um soluçar mudo, cá dentro. A mente do guardião distraiu-se com outras coisas e por momentos ignorou os destroços da Torre. Fechou o terreno, deixou-o em pousio e partiu para outras paragens mais calmas e felizes.

No terreno em pousio escoavam-se as forças para soluçar. O guardião recusava-se a manter essa ladaínha. Os fragmentos ficaram sós. E sós, consolavam-se uns aos outros e sonhavam com dias melhores. Sonhavam com o Sol, com a harmonia, com a Torre outrora tão bela, tão alta e forte. A mente do guardião ia ignorando esses pobres sonhadores. Às escondidas, os fragmentos mais audazes iam retirando recursos dos outros cantos da mente. Iam-se energizando lentamente.

Algum tempo mais tarde, o guardião sentiu uma picadinha, um ardor. Assustou-se e foi a correr vigiar aquele terreno abandonado. Surpreso contemplou uma Torre. Aquela mesma Torre. De novo edificada, brilhante ao sol, de superfícies suaves. Material resistente. O guardião correu nos acontecimentos e avançou no espaço, porém, deixando o tempo para trás.
O elo estava reestabelecido.
Agora que o elo estava fresco, novo, reforçado, o guardião abrira aquele quartinho da mente. Arejou-o, recompensou os fragmentos que de novo formavam uma imagem nítida. O guardião viveu feliz com a sua Torre e o seu elo durante quase dois meses. O receio da queda, o receio da destruição da Torre haviam desaparecido. E não compreendia, ainda, como tudo havia acontecido no passado. Livre de pretéritos, o guardião sentiu-se mal e não compreendeu que nuvens eram aquelas que apareciam no horizonte. Assustou-se com a ideia de uma nova tempestade. Lançou cordas à Torre e amarrou as cordas a estacas enfiadas no solo. Cobriu a Torre com um oleado e esperou, aterrorizado, pela chegada da tempestade.

As nuvens do horizonte pareciam multiplicar o tempo sentido pelo guardião e chegaram à Torre em escassos segundos. As cordas aguentaram a Torre o melhor que puderam, suportaram tensões terríveis. Estiveram perto de ceder. Mas não cederam, não pela ventania. Desta vez as nuvens traziam facas, eram cortantes à passagem e magoaram o guardião. Feriram-no muito fundo e cortaram as cordas. O oleado voou, as cordas caíram por terra. Só aí é que os fragmentos perceberam a gravidade da situação. Perceberam que a Torre estava a ser sacudida violentamente e que já não existiam as cordas que a aguentavam. As facas que as nuvens traziam não se limitavam a actuar sobre as cordas; cortavam os fragmentos e arrancavam-nos com rudes golpes. Caíam por terra e a Torre desmoronou-se.

A falsa protecção, a falsa preparação do guardião não permitia sequer que ficasse de pé a estrutura da Torre, à semelhança de outras tempestades. Apenas alguns fragmentos se mantinham na base, menos fustigados pela intempérie. Com a passagem das nuvens mais carregadas, os fragmentos saíam dos abrigos improvisados e recomeçavam tudo de novo. Processo lento, complicado, moroso. Sempre rebelde. Sempre afastado das aparências, longe da aparente vontade do guardião, longe dos desejos.

A devastação, enorme, tornou-se cenário para aquele conhecido quartinho, para aquele reduto final onde os fragmentos, cansados, habitavam encerrados, longe dos olhares alheios, longe do conhecimento dos outros seres que rodeavam o guardião. O segredo ia-se compondo. Os fragmentos sempre teimosos e animados de uma estranha energia, proveniente de uma estranha fonte, prosseguiam na lenta reconstrução. A reconstrução de uma Torre que abana, cai mas nunca desaparece. Da Torre cuja estrutura se mantém na imaginação, na consciência dos fragmentos.

Era mais calmo. Levava mais tempo este processo. Desta vez o guardião não ignorava a Torre. Não ignorava o desejo de sentir a picadinha, o ardor já conhecido. Vigiava de perto o esforço dos fragmentos, vigiava de perto a construção do elo, ajudava na criação da ponte. O guardião aproximava-se da guardiã e alimentava os fragmentos, dava-lhes força.

A base foi reforçada. Os fragmentos mais fortes ordenaram que a base fosse solidamente construída. A subida da Torre processou-se lentamente. Após as outras experiências, já numa terceira reconstrução, corrigiam-se os erros, limavam-se os contactos dos fragmentos, polia-se a superfície. A Torre foi subindo e novas técnicas foram utilizadas. O guardião espetou estacas no solo, prendeu novas cordas, cobriu a Torre com uma dose de paciência, com uma dose de compreensão nunca antes sentida por ele. A Torre, agora escorregadia às ilusões, confundia-se de novo com o céu, lá em cima, num pontinho ínfimo. O tempo nublado, as pequenas oscilações do elo, as pequenas vibrações da ponte, já não perturbam a Torre a ponto de assustar e embaciar os fragmentos, de novo nítidos. O Sol vai brilhando por entre nuvens passageiras, por entre pequenos desenganos. A Chuva, que cai em tempos de capricho da guardiã, é menos corrosiva, é menos ácida. O guardião observa atentamente o horizonte e a cada segundo suspira de alívio por não ver exércitos negros, molhados, cortantes, causticos. Suspira de alívio porque passou mais um segundo e a Torre está de pé. Fazem-se pequenas reparações, combate-se o tempo e as suas feridas, pequenos sangramentos pela sua lâmina afiada.

O guardião exibe uma casca calma, despreocupada. Mas por dentro, treme, abana e morre de medo. Só quer ser feliz, só quer que o deixem manter a nítidez daqueles fragmentos que sempre o acompanham, só quer manter-se no elo, no meio da ponte. O guardião só procura o Sol. Sempre o Sol, a harmonia e a felicidade. O guardião só quer ter sempre o mesmo olhar que alimenta os fragmentos.

@08-05-1994

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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