“Eu não conhecia a solidão, sabias?”
Nunca estiveste sozinha.

Parece-me que estou só.

Não te tenho aqui ao meu lado. Não te tenho deitada na minha cama à espera que me vá deitar. Não te oiço chamar-me.
Não te tenho apoiada nos meus ombros dizendo-me coisas ao ouvido. As coisas que eu queria ouvir.

Parece-me que estou só.

Parece-me que tu estás só.

Porque eu não estou aí para te chamar para a cama, porque eu não estou aí para nada te dizer ao ouvido.

Porque já te disse tudo.

Porque o teu ouvido ficou mudo aos meus pareceres. Porque o teu ouvido se fechou. Tenho a certeza de estares só. Por aqui é noite. As horas vão passando, sabes? Começo a sentir-me caír. Começa a parecer-me que as forças se vão. É que à noite fico sozinho. Os silêncios aparecem para me vir buscar. A luz vai-se embora. As minhas ideias começam a fazer eco cá dentro. É aí que tenho a certeza de estar só. Tenho estado muito sozinho. O mundo é o mesmo. Mas tu não tens aparecido nele. Andas longe e pareces não te incomodar. Sou o último da fila. Sou o último de tudo. Ando mesmo sozinho.

Ando a pensar em desistir.

Mas tenho sonhos. Tenho coisas cá dentro de que não me consigo livrar. Não tenho a certeza de me querer livrar. Estou tão preso. Mas o eco é tão forte. As paredes são tão más. A noite insiste em levar-me com ela. Estou cansado de combater fantasmas. Estou prestes a caír, a deitar-me por terra. Não posso viver assim. Já não posso viver assim. E tenho a certeza de que o teu coração está só. Julga-se acompanhado, mas ele próprio fecha-se e isola-se. Só pode estar só. Mas tu queres assim.

Não precisava ser assim.

Não te passa minimamente pela ideia quão importante é que me agarres agora. Estou-te a fugir pelos dedos e tu nem sentes. Não fujo porque quero. Sinto-me fugir porque o corpo se evade. Porque me doi o corpo. Porque a alma já não tem muita força. Porque precisa de descanso.

Sabes, o amor verdadeiro leva todas as pessoas a vencer montanhas, a vencer os mares, a levar a melhor aos desertos. Mas não contigo. Tu não vences montanhas, cria-las. Não vences os mares, incitas as chuvas. Não levas a melhor aos desertos, apenas te acomodas num banho de sol. O bronze da pele, o comodismo da mente. Por ti faço tudo. Por mim nada fazes. Nada te sacrificas. Pedes demasiado para aquilo que estás disposta a oferecer. Estás quase a perder-me e não sabes. E se me perderes vai ser só por tua causa. Que mais me podes exigir? Que mais tens tu o direito de me pedir? Mais nada. Dei-te tudo. Não te dou mais. Nem tenho. Fecha a mão enquanto podes. Prende-me enquanto podes. Não tens muito tempo. Não tens semanas para agir. Não tens dias para pensar. Tens tão poucas horas para me agarrar. Estou à beira da libertação. Estou quase a sair das redes. Com dôr. Com muita dôr.

Estou quase a aceitar a lógica. Estou quase a aceitar desistir de todos os anos em que contrariei o mundo, em que fechei os olhos à razão. Estou quase a deixar-me levar. Mas não é o que eu quero, não é o que eu sinto. É o que me acontece. Naturalmente. O chão foge-me debaixo dos pés. Não tenho nada onde me segurar. Não tenho nada onde me agarrar. Não tenho mais nada. Estou pequeno. Estou só. Estou muito só. Vou escorregar. Vou caír. Vou precisar que alguém me dê a mão. Preciso que me dês a mão. Preciso que acordes. Não tens muito tempo. Não tenho muito tempo. São minutos apenas. E para caír preciso apenas de alguns segundos. Mas tu não percebes. Tu não dás por nada. Habituaste-te tanto a ter-me perto quando chegas a casa que com o tempo deixaste de ter pressa em chegar a casa. E nem desconfias que possas abrir a porta e não me encontrar. E vais estar só. Vais ficar muito só. Mas só vais perceber na altura.

Vai ser tarde em breve.

Percebe tudo agora. Só agora. É agora. Amor, é agora. E se não quiseres perceber? E se estiveres apenas à espera que eu caia? E se já não te importares com isto? E se nunca mais quiseres voltar a casa? Se nunca abrires a porta? E se tudo tiver sido em vão? E se um dia descobrir que foram tempos perdidos? E se um dia perceber que não guardei nada? E se um dia não quiser viver? E se um dia me calar. Se deixar de te dizer ao ouvido as coisas que querias ouvir? Irás notar a falta? E se um dia não tiveres letras minhas para ler. E se um dia souberes que nunca mais me vês?

Eu estou tão cansado. Só me apetece adormecer e esquecer. Deixar os ossos sossegar, a pele recuperar, a alma esvaziar. Estou por um fio. Já estive antes. Ao fio deram-lhe um nó e chamaram-lhe novo. Mas estou lá outra vez. Porque tu não me agarras. Porque me deixas sempre no fim da lista das compras. Depois de todos, depois de tudo. Não tens tempo para mim. E pensas que vou ficar assim sempre.

Terás nascido ontem?

Será que estás apenas à espera? Não percebes que me vou? Que posso nunca mais voltar. E isso não te importa. Eu sei quem és. Eu sei quem somos. O que somos. Mas tu nunca leste o livro. Nunca viste o filme. Acredito que estás só. Acredito que podes vir a ficar só. Eu cá me arranjo. A solidão torna-se hábito. Mas vou rezando. Tenho a certeza que Deus me vai ouvir. É uma coisa que tu não fazes.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *